O ÚLTIMO APITO – Artigo de Demétrius Faustino

O ÚLTIMO APITO

 

Demétrius Faustino

 

Durante um mês inteiro, o mundo parece esquecer, por alguns instantes, todas as suas diferenças. Idiomas, fronteiras, religiões, ideologias e costumes continuam existindo, mas, por noventa minutos, milhões de pessoas passam a falar a mesma língua: a do futebol.

Então chega a final da Copa.

Não importa quem esteja em campo. Sempre há alguém vestindo a camisa da esperança, alguém carregando o peso de um país inteiro e alguém sonhando em entrar para a história. A bola continua sendo a mesma, redonda e silenciosa, mas parece carregar dentro dela os sonhos de gerações.

Nas arquibancadas, os olhos não piscam. Nas salas das casas, o almoço esfria, o celular é esquecido sobre a mesa, as conversas são interrompidas. Até quem diz não gostar de futebol acaba perguntando o placar. A final tem esse poder estranho de reunir gente que passou anos sem se falar e de provocar abraços entre desconhecidos.

Quando o árbitro apita o início, não existe passado. Só existe o relógio correndo depressa demais.

Cada passe parece decisivo. Cada defesa transforma um goleiro em herói ou vilão. Cada chute desperdiçado faz milhões de pessoas colocarem as mãos na cabeça ao mesmo tempo, como se compartilhassem um único coração.

E, de repente, tudo acaba.

O último apito não encerra apenas uma partida. Ele fecha um ciclo de quatro anos de expectativas, elimina as últimas tabelas de bolão coladas na geladeira, silencia os comentaristas improvisados da esquina e devolve o mundo à sua rotina.

Os campeões erguem a taça com lágrimas de alegria. Os derrotados tentam esconder lágrimas diferentes, aquelas que nascem da consciência de que talvez nunca mais tenham outra oportunidade. No futebol, como na vida, nem sempre o melhor roteiro termina com o final desejado.

Depois da cerimônia, as luzes do estádio começam a se apagar lentamente. Os fotógrafos recolhem seus equipamentos, os torcedores deixam seus lugares e o gramado, que há poucos minutos parecia o centro do universo, volta a ser apenas um campo vazio.

No dia seguinte, a cidade desperta diferente. Ainda há bandeiras penduradas nas janelas, mas elas já balançam com menos entusiasmo. Os bares voltam à programação habitual. Os programas esportivos começam a discutir contratações, aposentadorias e o próximo ciclo. A Copa, que durante semanas parecia eterna, transforma-se em lembrança.

Talvez seja justamente essa brevidade que torne o torneio tão fascinante. A Copa do Mundo nos lembra que os momentos mais intensos são passageiros. A euforia não dura para sempre, assim como a tristeza da derrota também acaba encontrando um lugar tranquilo na memória.

E é curioso perceber que, quando termina a final, o torcedor já começa a fazer o que sempre fez: contar os dias para a próxima. Quatro anos parecem uma eternidade, mas passam. Novos meninos surgirão nos campinhos de terra imaginando levantar aquela taça dourada. Novos veteranos acreditarão que ainda dá tempo de disputar mais um Mundial. Novas histórias serão escritas.

Porque a Copa nunca termina de verdade.

Ela apenas se despede por um tempo, deixando guardado em algum canto da memória o eco de um estádio lotado, o brilho da taça refletindo as luzes da noite e a certeza de que, em algum lugar do mundo, uma criança já está chutando uma bola e sonhando com a próxima final.

João Pessoa, julho de 2026.