SILÊNCIO ADESIVADO
Demétrius Faustino
Brasília esteve acordada durante 36 horas com essa novidade no cardápio político: fita adesiva. Sim, porque a oposição resolveu inovar e lançou o modelo “protesto boca fechada”, edição limitada. Foi a estreia da temporada “Silêncio Adesivado”, série original do Congresso Nacional.
Sim, fita adesiva mesmo. O objeto que normalmente serve para embalar caixas de mudança ou improvisar consertos caseiros ganhou status de símbolo de resistência parlamentar.
O Brasil assistiu, perplexo, à cena. Os memes surgiram em velocidade de foguete: montagens mostravam os parlamentares como participantes de The Voice Mudo Brasil, lutadores de UFC esperando o juiz liberar o combate, e até personagens de reality show disputando quem segurava por mais tempo a pose dramática. Uma enquete viralizou: “Qual fita adesiva salva melhor a democracia? Crepe, silver tape ou isolante?”
Cenário: um Congresso, várias cadeiras vazias, mesa diretora e tribunas ocupadas por parlamentares com a boca lacrada. Parecia ensaio de filme distópico, mas era só mais um dia no Brasil.
Os deputados e senadores subiram à tribuna com cartazes e cara de quem descobriu o segredo do marketing político: “Se eu falar, ninguém escuta; se eu calar, viralizo.” E funcionou! Em menos de uma hora, já havia vídeo com trilha sonora dramática, hashtag bombando e fã-clube dos “justiceiros da fita”. É como se tivessem, enfim, encontrado o Santo Graal do marketing político contemporâneo.
Do lado do governo, o riso era contido. Um ministro cochichou:
— Pelo menos agora eles não falam.
E outro completou:
— Mas postam, o que é pior.
Enquanto isso, o povo brasileiro, especialista em transformar tragédia em meme, já perguntava se a fita poderia ser patrocinada pela 3M: “A marca que cala mais do que o regimento interno.”
No Instagram, surgiram stories com filtros em preto e branco, cortes cinematográficos e closes nas fitas reluzindo sob a luz do plenário. No Twitter — ou “X”, para os que fingem que mudou alguma coisa — os comentários ironizavam:
“Nunca vi gente calada fazer tanto barulho.”
“Oposição lança desafio: #FitaChallenge”.
“Cole na boca, descole na timeline.”
Enquanto isso, em grupos de WhatsApp, brotavam memes como erva daninha: montagens transformando os parlamentares em capas de álbuns de rock alternativo, pôsteres de filmes franceses e anúncios de fita adesiva com slogans como: “Gruda no Congresso, cola na sua consciência.”
E o dia terminava como sempre: pauta travada, meme criado e democracia brasileira garantindo mais uma cena para o streaming global da política. No fim das contas, a fita adesiva serviu mesmo foi para grudar o Congresso na timeline da internet.
Próximo episódio? Aposto numa performance com capacete de alumínio e cartaz “Me sinto censurado”. Porque, no Brasil, o circo nunca fecha — só muda o número do espetáculo.
João Pessoa, agosto de 2025.
