Setembro Amarelo: mudanças de comportamento podem indicar sofrimento emocional em familiares e amigos

Uma mensagem que deixa de ser respondida, um convite recusado várias vezes, o silêncio de quem antes participava de todas as conversas. Nem sempre essas mudanças chamam atenção de imediato, mas podem indicar que algo não vai bem. Observar alterações no comportamento de familiares e amigos é uma forma de perceber sinais de sofrimento emocional e abrir espaço para o cuidado.

É justamente nesse olhar para o cotidiano que o Setembro Amarelo amplia sua importância. A campanha estimula a sociedade a reconhecer situações de sofrimento antes que elas se agravem, fortalecendo a escuta, o acolhimento e a busca por ajuda profissional.

Segundo o médico psiquiatra Kaike Thiê, professor de pós-graduação e educação continuada da Afya Educação Médica, não existe um único padrão para o sofrimento emocional. Por isso, em vez de observar apenas sintomas isolados, é importante notar alterações significativas em relação à forma como a pessoa costumava agir.

“Muitas vezes, o sofrimento aparece primeiro através de mudanças no comportamento. Uma pessoa antes comunicativa pode começar a se isolar; alguém que gostava de determinadas atividades pode perder o interesse por elas; podem surgir alterações importantes de sono ou apetite, irritabilidade, piora do autocuidado, aumento do consumo de álcool ou outras substâncias, queda no rendimento no trabalho ou nos estudos e afastamento das pessoas próximas”, explica.

O especialista destaca ainda que a atenção deve se estender às falas que demonstram desesperança, desvalorização pessoal ou falta de perspectiva. Frases como “eu sou um peso”, “nada mais faz sentido” ou “as pessoas estariam melhor sem mim” não devem ser tratadas como drama ou simplesmente ignoradas.

Para o psiquiatra, mudanças em relação ao comportamento habitual são um dos principais elementos que devem despertar a atenção de quem convive com a pessoa. “Em vez de decorar uma lista de sintomas, o essencial é perceber mudanças. Às vezes, o primeiro sinal de que alguém não está bem é simplesmente perceber que aquela pessoa deixou de ser como costumava ser”, afirma.

Nem todo sofrimento significa uma doença

O professor explica que sentimentos como tristeza, ansiedade, medo, luto e frustração fazem parte da experiência humana e não devem ser automaticamente interpretados como sinais de um transtorno mental. A avaliação deve considerar a intensidade e a duração do sofrimento, além do impacto que ele provoca na rotina.

Quando essas dificuldades começam a comprometer o sono, a alimentação, o trabalho, os estudos, os relacionamentos, o autocuidado ou a capacidade de sentir prazer, é importante buscar uma avaliação profissional. A atenção também deve ser imediata diante de manifestações de desesperança intensa, pensamentos de morte ou qualquer situação que indique risco de a pessoa se machucar.

“Talvez a pergunta mais útil não seja apenas ‘há quanto tempo estou assim?’, mas ‘o quanto isso está me impedindo de viver a minha vida?’. E existe uma exceção importante: diante de pensamentos de morte, desesperança intensa, comportamento muito diferente do habitual ou risco de a pessoa machucar a si mesma, não é necessário esperar semanas para procurar ajuda”, alerta Kaike Thiê.

Como abordar alguém que não parece bem

Ao perceber que uma pessoa próxima mudou, a recomendação é evitar julgamentos e tentativas imediatas de minimizar o problema. A escuta ativa pode ser um primeiro passo para criar um espaço seguro de conversa, sem pressão para que a pessoa apresente respostas ou soluções. O acolhimento também pode abrir caminho para que a pessoa aceite buscar acompanhamento especializado.

“Não precisamos encontrar a frase perfeita. Muitas vezes, basta demonstrar que percebemos que aquela pessoa não está bem e nos colocar à disposição para ouvi-la. Quando alguém conta que está sofrendo, nosso impulso é tentar resolver rapidamente, dar conselhos ou mostrar que as coisas ‘não são tão ruins assim’. Só que, naquele momento, talvez a pessoa precise primeiro sentir que alguém conseguiu enxergar a dimensão do sofrimento dela”, orienta o professor da Afya Educação Médica.

Também é importante evitar frases que possam aumentar a culpa ou fazer a pessoa se sentir incompreendida. Comentários como “você tem tudo e ainda está triste”, “isso é falta de força de vontade”, “tem gente passando por coisa pior” ou “é só pensar positivo” podem afastar quem já enfrenta dificuldades.

Segundo Kaike Thiê, acolher não significa concordar com tudo ou ter respostas prontas, mas reconhecer a dor e ajudar a pessoa a encontrar caminhos de cuidado.

“Família e amigos são parte fundamental da rede de proteção, mas afeto não substitui tratamento quando existe um transtorno mental ou uma situação de risco. Quando há sofrimento persistente, perda importante de funcionamento, isolamento progressivo, uso problemático de substâncias, desesperança ou pensamentos recorrentes de morte, é importante buscar avaliação profissional”, destaca.

Quando buscar ajuda

A procura por psicólogo, psiquiatra ou outro profissional de saúde deve ser incentivada quando o sofrimento interfere de maneira significativa na vida cotidiana ou apresenta sinais de agravamento. A rede de apoio pode acompanhar a pessoa nesse processo, inclusive ajudando no acesso ao atendimento. Em situações de crise, porém, a prioridade é garantir a segurança e buscar atendimento adequado.

“Se houver risco imediato de suicídio, plano definido, tentativa em andamento, intoxicação ou uma situação em que a pessoa não consiga se manter segura, a prioridade deixa de ser convencer ou aconselhar: passa a ser protegê-la. Não se deve deixá-la sozinha, e é importante reduzir o acesso a meios potencialmente letais e buscar atendimento de urgência”.

No Brasil, em situações de emergência, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) pode ser acionado pelo 192. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo 188, 24 horas por dia, mas o serviço não substitui o atendimento de emergência diante de risco iminente. Na rede pública de saúde, também é possível buscar orientação em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

Para Kaike Thiê, a principal contribuição do Setembro Amarelo está em estimular uma cultura permanente de atenção à saúde mental. A prevenção não começa somente quando uma crise se instala, mas também na percepção de mudanças, na disposição para conversar e no encaminhamento para o cuidado adequado.

“Setembro Amarelo é importante justamente porque nos lembra que a prevenção não começa no último momento. Talvez a pergunta mais importante que possamos aprender a fazer seja também uma das mais simples: ‘Você está bem? Eu percebi que alguma coisa mudou e estou aqui se você quiser falar’”, conclui o psiquiatra.

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