PATRIOTAS DE SOFÁ – Artigo de Demétrius Faustino

PATRIOTAS DE SOFÁ

 

Demétrius Faustino

 

Descobri que o Brasil mudou quando percebi que as pessoas já não perguntam “como vai?”. Agora investigam.

— E aí… continua do mesmo lado?

Não é uma pergunta. É uma perícia.

Dependendo da resposta, o café esfria, o churrasco acaba ou o grupo da família perde mais um integrante. O brasileiro inventou uma modalidade esportiva inédita: o salto ornamental para fora do grupo de WhatsApp.

O bolsonarismo, convenhamos, elevou o patriotismo à categoria de expediente integral. Antigamente o cidadão tinha um emprego e uma opinião política. Hoje parece ter duas profissões: uma que paga as contas e outra dedicada a fiscalizar o destino da República.

Há especialistas em urnas eletrônicas que nunca conseguiram programar o controle remoto da televisão. Há estrategistas internacionais que ainda se confundem com o horário de verão. Mas falam sobre geopolítica com a segurança de quem redigiu o mapa-múndi.

As redes sociais ajudaram muito. Nunca foi tão fácil encontrar quem concorde conosco. Basta bloquear todos os outros.

É um método eficiente. Depois de algum tempo, a pessoa acredita sinceramente que noventa e oito por cento da população pensa igual a ela. Os dois por cento restantes são tratados como erro estatístico ou conspiração.

O curioso é que a vida continua completamente indiferente às guerras da internet.

O padeiro não pergunta se o freguês é conservador antes de vender o pão. O eletricista conserta a fiação sem consultar a preferência eleitoral da tomada. O motorista do ônibus não faz discurso patriótico antes de arrancar. A realidade insiste nesse hábito antiquado de funcionar sem pedir autorização aos comentaristas.

Enquanto isso, surgem heróis todos os dias. Alguns enfrentam o sistema. Outros enfrentam o algoritmo. A maioria enfrenta mesmo é a fila do banco, o preço do supermercado e a prestação que vence na segunda-feira.

Mas isso rende poucas curtidas.

O brasileiro descobriu que discutir política dá mais audiência do que resolver problemas. Um buraco na rua pode esperar meses. Um comentário contrário na internet precisa ser respondido em trinta segundos, de preferência com letras maiúsculas, três bandeiras e um emoji indignado.

Há quem acredite que o país será salvo por uma postagem.

É uma esperança bonita. Econômica também. Sai bem mais barato do que tapar o buraco.

No fundo, talvez todos estejamos sofrendo da mesma doença: a certeza em excesso. Cada um carrega a própria verdade como quem leva um guarda-chuva num dia de sol. Vai que aparece alguém com uma opinião diferente.

E aparece.

Sempre aparece.

Ainda bem.

Porque, quando todo mundo pensa exatamente igual, a conversa acaba. E, quando a conversa acaba, sobra apenas o monólogo. Monólogo, como se sabe, é uma conversa em que ninguém aprende nada.

Talvez o Brasil não precise de menos política. Precise apenas de menos torcidas.

Afinal, uma nação não é um estádio. E um adversário político não deveria ser tratado como se tivesse cometido a imperdoável ousadia de torcer pelo time errado.

João Pessoa, julho de 2026.