Demétrius Faustino
Tudo começou como começam as coisas que resistem: sem grandiosidade, sem anúncio, sem projeto acabado. Começou com algumas vozes inquietas, dessas que não se conformam em guardar o que sentem. Gente que carregava versos no bolso — às vezes escritos em papel, às vezes apenas guardados na memória — e que precisava de um lugar onde a palavra pudesse respirar fora das páginas, fora do isolamento.
Há lugares que não cabem no tempo — e, quando completam anos, não envelhecem: florescem. Não se submetem à lógica das datas riscadas no calendário, nem se deixam aprisionar pela aritmética fria dos anos. São feitos de outra matéria, mais sutil e persistente: memória, afeto, presença. Enquanto o mundo insiste em medir tudo pelo desgaste, esse lugar — o Quiosque da Poesia — se refaz a cada encontro, como se o tempo, em vez de lhe roubar, lhe devolvesse algo: um brilho renovado no olhar de quem chega, uma camada mais funda de sentido no que já parecia conhecido, uma permanência que não pesa, mas pulsa.
Quem chega pela primeira vez talvez veja apenas um quiosque. Um ponto fixo, um abrigo simples, quase despretensioso. Mas quem permanece descobre: ali pulsa um território invisível, onde a poesia não pede licença, onde o verso não precisa de moldura, onde o improviso é tão legítimo quanto o poema lapidado na solidão de um quarto.
O Quiosque é feito de gente — e gente é matéria viva. É voz que se afirma na primeira leitura, é aplauso que não julga, mas celebra. É o jovem que descobre sua palavra, é o veterano que redescobre o mundo por meio dela. É o encontro improvável de destinos que, por algum capricho bonito da vida, resolveram rimar. Há poesias que não ficaram registradas em papel algum — dissolveram-se no ar —, mas permaneceram em quem ouviu, como uma espécie de eco íntimo, desses que a gente carrega sem saber explicar.
O tempo, que costuma ser tão duro com as coisas, ali parece aprender a ser leve. Porque o Quiosque não resiste ao tempo — ele dialoga com ele. Cada encontro é um gesto de permanência, uma afirmação de que a poesia não é luxo, não é ornamento: é necessidade humana, tão essencial quanto respirar, tão urgente quanto existir. Já não é apenas um lugar. É uma memória coletiva em movimento. É um corpo formado por muitas vozes. É uma chama que se alimenta da partilha.
Talvez seja justamente aí que resida o mais bonito: perceber que, enquanto houver alguém disposto a dizer um verso — ainda que em construção, ainda que buscando forma —, o Quiosque continuará vivo. Não importa o número que se acumule nos calendários. A poesia, quando encontra casa, aprende a permanecer.
Os poetas presentes não apenas celebraram o Quiosque — eles o reafirmaram. Porque o Quiosque, no fundo, é isso: esse tecido invisível feito de vozes que se encontram, se reconhecem e, por um instante, caminham juntas.
Hoje, mais do que nunca, ficou evidente que a poesia ali não é objeto — é acontecimento. E cada poeta presente foi, à sua maneira, a prova viva de que a palavra, quando partilhada, cria pertencimento, tece laços e funda permanências.
E que venham mais anos — não como mera soma, mas como renovação dos encontros, da palavra dita e daquilo que insiste em permanecer.
João Pessoa, março de 2026.
