O TEMPO QUE NÃO SE APAGA: MARCONI E A CADEIRA 32 DO IHGP – Novo artigo de Demétrius Faustino

O TEMPO QUE NÃO SE APAGA: MARCONI E A CADEIRA 32 DO IHGP

 

Demétrius Faustino

 

Há quem pense que a História é coisa do passado. Que não passa de um amontoado de datas, nomes difíceis e fatos que já não têm lugar no presente. Gente que enxerga a História como um livro velho, esquecido numa estante, servindo mais como enfeite do que como guia. Mas quem diz isso, com certeza, nunca viu José Marconi Gomes Vieira caminhando pelas ruas de São José de Piranhas.

Ele caminha atento — não apenas pelas da cidade, mas também pelos becos silenciosos da memória. Seu olhar não busca o futuro, mas os sinais que o passado deixou mal escritos, apagados ou esquecidos. Ele persegue silêncios. Vasculha arquivos com a mesma devoção com que outros vasculham a fé. Encontra um nome numa lápide antiga, uma pista em um jornal amarelado, uma história contada à beira do fogão por um ancião de fala lenta. E tudo isso ele anota, registra, compara, organiza — como se cada fragmento fosse uma peça de um quebra-cabeça que ele, incansável, insiste em montar.

Marconi não escreve sobre o passado — isso seria pouco. Ele o resgata, como quem toma pela mão uma criança perdida. Costura os fios soltos do tempo, encaderna memórias esparsas em volumes preciosos, dá nome e endereço a personagens que a poeira tentou apagar. Transforma o que era apenas lembrança em documento; o que era boato, em testemunho; o que era sombra, em presença.

E é aí que reside a mágica. Porque o que ele faz não é apenas contar o que foi — é garantir que aquilo que fomos continue vivo. Não como uma simples saudade, mas como uma consciência. José Marconi não é apenas um historiador. É um guardião do que realmente importa.

É que, exatamente em 18 de março de 1962, nascia em São José de Piranhas um menino que viria a ser historiador — sem jamais deixar de ser sertanejo. Filho de Valdecy e Maria Selma, cresceu entre causos e sertões, sonhando, desde cedo, em escrever sobre sua terra. Aos 17 anos, fez as malas e partiu para João Pessoa. Era 1979, e o sonho de estudar crescia dentro dele como broto na caatinga.

 

 

Estudou — e como estudou. Formou-se em Direito e em História, fez especialização, leu os grandes nomes da historiografia paraibana. Frequentou salas de aula e sindicatos; fez da docência sua trincheira e, da militância educativa, seu chão. A cada aluno, uma semente. A cada greve, uma esperança. E, no fundo, sempre aquele desejo antigo: escrever a história dos seus.

Vieram os livros — dez ao todo — a maioria com a marca da terra natal. Marconi escreve com os olhos do menino de São José de Piranhas, mas com a pena do homem maduro, que sabe onde doí o esquecimento. Suas obras não são apenas registros — são resgates. De nomes, datas, clubes, famílias, igrejas, políticos, gestos e silêncios que o tempo insiste em apagar.

Hoje, ele ocupa uma cadeira no IHGP. O Instituto, fundado em 1905 entre nomes pomposos e discursos solenes, é hoje a Casa da Memória da Paraíba. E é nessa casa que Marconi chega deixando sua marca — uma marca serena, feita de pesquisa, silêncio e persistência.

Mas não é daquelas cadeiras de balanço na calçada, onde a gente descansa o corpo e deixa a vida passar — nem tampouco uma cadeira de repartição pública, onde se senta para preencher papéis e aguardar processos. A cadeira é outra: simbólica, solene, cheia de significado.

É a cadeira 32 do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano — um espaço que carrega, além do número, o nome de um patrono, a marca de um fundador e o peso de uma tradição centenária. Não se trata apenas de sentar-se; trata-se de ocupar um lugar dentro da própria história da Paraíba. Um lugar entre os que decidiram não deixar o tempo escorrer pelos dedos.

Lá, entre paredes que já ouviram discursos memoráveis e guardam retratos de grandes figuras, repousam as memórias de um estado inteiro — suas glórias, seus conflitos, seus silêncios. E é ali, nesse santuário laico da cultura e da memória, que José Marconi já está. Não por vaidade, mas por missão. Não por prestígio, mas por coerência com tudo o que sempre foi e construiu.

O curioso — ou talvez o justo — é que, de certo modo, ele já está lá há muito tempo. Está em cada livro que escreveu, em cada pesquisa que doou à coletividade, em cada linha que resgatou do esquecimento. Seu nome já circula, ainda que em silêncio, pelos corredores do Instituto — impresso nas referências, citado em agradecimentos, ecoando em páginas que ajudam a contar a Paraíba por dentro.

Um dia, sentou-se nas cadeiras do auditório Humberto Nóbrega, em dias de solenidade, e ouviu Evaldo Gonçalves como se escutasse o próprio tempo sussurrando: “ainda não é agora, mas será”. E foi. Por unanimidade, passa a ocupar a Cadeira 32 — a mesma que pertenceu a Evaldo. Coincidência? Talvez. Ou talvez apenas o tempo divino.

Afinal, quem mais se dedicou a registrar os feitos, as figuras, os pequenos e grandes movimentos de sua terra com tanto zelo? Dez livros. Mil histórias. E um respeito profundo pelo chão que pisa. Marconi não quer ser celebridade — quer ser memória. Enquanto muitos correm atrás dos holofotes, ele acende lamparinas sobre a vida de intendentes, clubes sociais, padres, prefeitos, poetas e sertanejos esquecidos.

Dizem que o historiador é aquele que escreve a história dos outros. Mas, no caso dele, é mais do que isso. Ele escreve a própria história ao contar a dos seus. Inscreve-se no tempo da cidade como quem planta uma árvore em cada página — e planta com raiz funda.

Representar São José de Piranhas no Instituto é um sonho que agora vive em mim, disse ele, com a voz calma de quem já percorreu as estradas de muitos sertões – reais e simbólicos. Foram 43 anos ensinando história em João Pessoa, e agora, mais do que nunca, promete continuar: não como quem começa, mas como quem sabe que a história não termina enquanto houver memória.

Concluir esse percurso é, na verdade, reconhecer que ele continua. Porque José Marconi Gomes Vieira nunca escreveu para si, mas para os que vêm depois. Sua presença no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano não é ponto de chegada, mas de continuidade — como os rios que cruzam o sertão, silenciosos, mas indispensáveis. Enquanto houver páginas em branco, arquivos empoeirados, nomes quase esquecidos e alunos sedentos de sentido, lá estará ele — com sua calma firme, sua paixão pelo saber e sua fé na memória. Porque Marconi não se limita a contar a história: ele a vive, a honra e a compartilha. E isso, no fundo, é o que torna eterna sua missão.

João Pessoa, junho de 2025.

 

 

 

A seguir, um resumo biográfico de José Marconi Gomes Vieira:

José Marconi Gomes Vieira nasceu em 18 de março de 1962, em São José de Piranhas (PB), filho de Valdecy Vieira de Sousa e Maria Selma Gomes de Sousa. Desde jovem demonstrou interesse pela educação e pela história da sua terra natal. Em 1979, mudou-se para João Pessoa para concluir os estudos e logo foi aprovado no vestibular para Direito e História. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pelo IPÊ em 1986 e em História pela UFPB em 1985, além de se especializar em História Econômica e Social do Nordeste Contemporâneo em 1990.

Ao longo de mais de quatro décadas de magistério, lecionou em escolas das redes pública e privada da capital paraibana. Teve forte atuação nos movimentos sociais, especialmente ligados à valorização do magistério, participando de lutas sindicais pela dignidade da profissão docente. Desde cedo também se envolveu com o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP), onde iniciou sua participação ainda como pesquisador, quando produziu sua monografia sobre o poder político em sua cidade natal.

Marconi publicou dez livros dedicados à história política, social, religiosa e cultural de São José de Piranhas e de outras localidades do Sertão paraibano, registrando as memórias de famílias, instituições e figuras públicas. Sua obra inclui títulos como São José de Piranhas: Eleições e Partidos Políticos, Memórias do Jatobá Club, História da Paróquia de São José de Piranhas e José Cavalcanti: Homem – Político – Escritor, entre outros.

Em 2025, foi incentivado por intelectuais e amigos — como o historiador José Octávio de Arruda Mello, Martha Falcão e o ex-deputado Ramalho Leite — a disputar uma vaga no IHGP. Eleito por unanimidade para a Cadeira nº 32, que tem como patrono Ambrósio Fernandes Brandão e fundador Sabiano Maia, Marconi assumiu com o compromisso de representar dignamente São José de Piranhas na mais antiga instituição cultural da Paraíba.

O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, fundado em 1905, é uma entidade de imenso valor para a preservação da memória paraibana. Com acervo vasto e valioso, abriga documentos, livros raros, mapas e arquivos históricos, e tem como missão a promoção da cultura, da história e da geografia do estado e do país. Ao integrar esse seleto grupo, Marconi reafirma seu compromisso com a valorização do patrimônio cultural sertanejo e com a continuidade do trabalho de preservação histórica.