O SARGENTO, O JUIZ E A BOLA DO MENINO
Demétrius Faustino
Pois veja só… quem puxa esse fio de memória é o poeta Merlânio Maia, desses que não apenas contam histórias — transformam fato em causo, lembrança em paisagem e palavra em presença. E ele conta com uma força de imagem e um jeito tão vivo que a cena se arma diante dos olhos, como se a gente estivesse ali, sentado numa calçada quente de fim de tarde, ouvindo os mais velhos desfiarem lembranças.
Diz ele que, lá pras bandas de Itaporanga, teve um tempo em que a coisa apertou de um jeito que nem parecia cidade pequena. Era ordem pra todo lado, norma disso, proibição daquilo… e quem mandava era o juiz, um tal de Dr. Severino do Lácio, homem de pulso firme, que resolveu botar o mundo nos trilhos — ou pelo menos achava que estava.
E não era pouca coisa, não.
Moça não podia mais usar minissaia. Rapaz tinha que andar de bermuda comportada, na altura do joelho. E menino? Menino não podia mais jogar bola nem na rua, nem na calçada, nem na praça. Só em campo e olhe lá.
Aí você já imagina, né… cidade do interior, sol quente, menino doido pra brincar… isso não ia prestar.
E não prestou.
Porque, bem nesse tempo, vivia por aquelas bandas um cabra chamado Gerson Nitão. Homem de respeito — desses que, quando chega, o povo logo ajeita a postura. Forte, valente, filho de Chico Nitão, que já trazia fama das antigas, lá dos tempos de Zé Pereira.
Pois o filho de Gerson, sem querer saber de norma nenhuma, tava lá: jogando bola na praça, bem em frente de casa.
Quando a polícia apareceu.
Parou o jipe. Desceram dois soldados.
O menino nem pensou duas vezes: pegou a bola e correu pra dentro de casa.
Mas os soldados vieram atrás.
Entraram.
Aí, meu amigo… foi onde o caldo entornou.
Gerson vinha saindo pelo corredor, viu aquilo e já foi logo engrossando a voz:
— “O que é que esses meganha tão fazendo dentro da minha casa?”
Os soldados ainda tentaram:
— “A gente só quer a bola…”
— “Quer nada! Fora daqui!”
E botou os dois pra correr.
Mas sabe como é… polícia quando se aperreia, não deixa barato.
Foram buscar reforço. E voltaram foi com tropa.
Dizem que juntou soldado que só vendo, tudo armado, com ordem de pegar a bola… e rasgar. Porque a ordem do juiz era aquela.
Só que Gerson também não era homem de baixar a cabeça, não.
Apareceu armado, com duas cartucheiras cruzadas, um revólver de cada lado — coisa de cinema, parecia até Clint Eastwood em dia de duelo.
E disse, seco:
— “Aqui não entra ninguém.”
Pronto.
Foi o bastante.
A rua foi cercada. Ninguém passava. Nem carro, nem gente. E, de um lado, polícia. Do outro, os cabras de Gerson, que começaram a aparecer — um em cima da casa, outro no muro, outro chegando armado… quando se viu, aquilo já era cenário de guerra.
E dizem que a casa ali já tinha história de bala nas paredes, viu… coisa antiga. Não era novidade pra ninguém.
Mas o pior ainda tava por vir.
Porque no meio daquele aperreio todo, quem entrou pra tentar resolver foi Natécio Barbosa, pai do narrador, amigo de Gerson, homem de conversa.
Entrou pra acalmar:
— “Vamos resolver isso, homem… não precisa virar tragédia, não.”
Mas era difícil.
De um lado, o sargento, recém-promovido, querendo mostrar serviço. Do outro, Gerson, dizendo que dali não arredava o pé.
E tudo por causa de uma bola.
Uma bola.
Natécio ainda tentou mexer os pauzinhos, chamar gente grande, falar com o governo da época, com gente ligada a Wilson Braga… mas a coisa já tinha crescido demais.
Ninguém cedia.
Até que veio a solução do jeito mais brasileiro possível: tiraram o problema do meio.
Transferiram o sargento.
No mesmo dia.
Mandaram o homem pra longe, lá pras bandas de Queimadas, só pra esfriar o clima.
E aí, pronto… como num passe de mágica, a paz voltou.
Depois disso, o próprio juiz acabou desfazendo aquelas normas todas. Porque viu — ou fizeram ele ver — que ordem demais, quando chega lá embaixo, na ponta, vira outra coisa.
Vira abuso.
Vira exagero.
E como dizia um general desses tempos antigos, que Merlânio lembra de ouvir falar — talvez Castelo Branco, talvez Ernesto Geisel — o problema não é quem dá a ordem lá em cima…
É quem executa lá na esquina.
Porque, se apertar demais, quem sofre é o povo.
E, naquele dia em Itaporanga, por muito pouco, uma bola de menino não virou motivo de morte.
João Pessoa, abril de 2026.
