O PASTOR DO MICROFONE
Demétrius Faustino
Silas Malafaia não fala, ele tromba. Quando abre a boca, não é voz: é buzina de carreata, sirene de ambulância, microfone de estádio em final de campeonato. Não há volume mínimo, só o máximo. A cada frase, parece que um trovão resolveu se fantasiar de pastor evangélico, descendo à Terra para competir com trio elétrico de carnaval.
O púlpito é pequeno demais, a igreja é estreita, e até o microfone, coitado, deve implorar em oração secreta: “Senhor, livrai-me dessa garganta estrondosa, antes que eu estoure os tímpanos da congregação”. O som não se espalha: ele invade, ele arromba portas, atravessa paredes, espanta pombos na praça vizinha e ainda interrompe a novela da vizinhança que tenta assistir em paz.
Quem já o viu pregando sabe que não se trata de um sermão, mas de uma trombada cósmica: a plateia se encolhe na cadeira, mas ao mesmo tempo aplaude. Porque Malafaia fala como quem briga com o mundo, como quem luta contra um inimigo invisível — e o faz em Dolby Surround.
É como se tivesse nascido com caixa de som embutida. Enquanto outros pedem copo d’água, ele precisa de retorno de show. Enquanto outros rezam em silêncio, ele grita “aleluia” como quem anuncia gol na final da Libertadores. E o pior é que, de tão barulhento, consegue transformar até a mais simples passagem bíblica numa guerra santa contra quem ousar discordar.
No fundo, a garganta de Malafaia não é apenas um instrumento de fé: é sua arma, sua marca registrada, seu patrimônio de guerra. Não se sabe se ele convence pela mensagem ou se simplesmente vence pela potência sonora. Afinal, diante de um trovão desses, quem tem coragem de dizer “não”?
Pastor, empresário da fé, influencer de polêmicas e animador de auditório — Malafaia não precisa escolher profissão, porque já inventou a sua: o “polêmico profissional”. Ele não vive de fé, vive de frisson. Dá opinião sobre tudo: da política internacional à novela das nove, passando pelo preço do tomate, a decisão do VAR e até a vida pessoal de quem nunca lhe pediu conselho.
É uma espécie de Google falante, só que com a pesquisa já filtrada por indignação em caixa alta. Pergunte qualquer coisa e ele devolve em formato de bronca. Quer saber sobre inflação? Ele explica como se fosse culpa do diabo. Quer entender política externa? Ele denuncia uma conspiração mundial contra os valores cristãos. Quer apenas assistir sua novela tranquila? Lá vem Malafaia, de dedo em riste, acusando o folhetim de obra do “marxismo cultural”.
Deus, pátria e família são seus três cavaleiros do apocalipse retórico. Só que sempre com aquele tempero: indignação performática, dedo em riste e olhar de quem acabou de descobrir que alguém roubou seu lugar no estacionamento. Parece até que, nos bastidores, Deus lhe dá o roteiro: “Vai, Silas, grita mais, senão o Ibope cai”.
Seus fiéis aplaudem como se fosse show. Seus críticos torcem o nariz, mas não mudam de canal. Porque Malafaia é isso: ele briga, brada, berra… mas entretém. E no fundo, ele sabe: silêncio é o único pecado que não perdoa.
Há quem diga que mistura religião com política. Que nada! Malafaia já criou uma nova doutrina: a religiolítica. É um híbrido improvável de sermão de domingo com comício de quarta-feira. Um culto com palanque, onde o amém se confunde com voto e a coleta passa como urna eletrônica invisível.
No meio da fala, sempre sobra espaço para um bom ataque a quem ousar discordar. Jornalista? Inimigo. Ministro do Supremo? Obra do demônio. Adversário político? Exemplo da decadência moral do Ocidente. E lá vai Malafaia, como um Dom Quixote com Bíblia na mão, lutando contra os moinhos de vento da modernidade — só que, no caso dele, os moinhos se chamam direitos humanos, diversidade e democracia.
E se faltar plateia? Ele arruma. Se faltar holofote? Ele acende. Se faltar escândalo? Ele inventa. Porque Malafaia não é um homem de fé no silêncio, mas da fé no espetáculo. Um espetáculo barulhento, exagerado, com plateia rindo, chorando, xingando e aplaudindo. O teatro perfeito para quem descobriu que, no Brasil, polêmica dá mais audiência que milagre.
No fim, o pastor segue o sermão, sempre de dedo em riste, sempre com a testa franzida, sempre no volume máximo. É que ele parece ter entendido algo que os outros ainda não: num país onde tudo é confusão, quem fala mais alto é quem tem razão.
João Pessoa, agosto de 2025.
