O HOMEM QUE RIA POR DENTRO DA GENTE -Artigo de Demétrius Faustino

 

Demétrius Faustino

 

Luiz Fernando Veríssimo nunca precisou levantar a voz. Bastava uma linha curta, um parágrafo tímido, e lá estávamos nós rindo de nós mesmos sem perceber. Era como se ele fosse aquele vizinho discreto que, entre um cafezinho e outro, deixava escapar uma frase capaz de desmontar toda a solenidade do mundo. Não fazia alarde, não batia na mesa — apenas escrevia com a naturalidade de quem conversa na calçada. E era justamente aí que morava a genialidade: no jeito de transformar o banal em revelação, de erguer pontes entre o humor e a filosofia usando tijolos de ironia suave.

Tinha o dom raro de achar graça no óbvio — e, ao mesmo tempo, revelar que o óbvio não era nada óbvio. Quem mais conseguiria fazer filosofia a partir de uma fila de banco, de uma tosse mal disfarçada, de uma conversa entre marido e mulher que nunca chegam a lugar nenhum? O texto dele era um espelho torto: refletia a vida real, mas com um humor tão preciso que, em vez de deformar, acabava revelando.

E era aí que estava o truque invisível do mestre: rir das coisas sérias e levar a sério as coisas risíveis. Quando parecia brincar, ele estava, na verdade, apontando as pequenas engrenagens que movem a comédia humana. Um cronista que nos ensinou que o cotidiano não é repetição, mas espetáculo — e que até o drama mais sisudo pode ser desmontado com uma ironia bem colocada.

Sua ironia era cirúrgica: nunca cruel, nunca panfletária, sempre humana. E talvez seja essa a marca maior do cronista — rir do mundo sem esquecer que também faz parte dele. O homem que inventou a Velhinha de Taubaté, última cidadã crédula do Brasil, sabia que a esperança é sempre teimosa, mas nunca boba.

Veríssimo nos ensinou que o riso pode ser um gesto de resistência. Que escrever não é apenas alinhar frases, mas alinhar sentidos. Que o humor, bem usado, é mais demolidor que qualquer discurso inflamado. E, acima de tudo, nos mostrou que até a crônica mais leve é coisa séria: porque é no leve que a vida acontece.

Ele nos provou que o sorriso não é alienação, mas ferramenta de sobrevivência. Ao rir, não fugimos da realidade — a desarmamos. Não se trata de escapar do peso do mundo, mas de reaprender a carregá-lo com mais leveza. Veríssimo, em sua simplicidade elegante, demonstrava que rir é uma forma de pensar, talvez a mais honesta delas. Pois só quem percebe a fragilidade humana consegue rir dela sem crueldade.

E assim, com ironia branda e inteligência generosa, ele nos deu uma aula contínua de humanidade. Não nos ofereceu fórmulas nem receitas: apenas um olhar — afiado, delicado, cúmplice — capaz de transformar a rotina em literatura. No fundo, sua maior lição é que viver também é um texto, e que o segredo talvez seja escrevê-lo com humor.

Hoje, homenagear Luiz Fernando Veríssimo é tentar escrever com o sorriso no canto da boca — e reconhecer que nunca chegaremos lá. Porque Veríssimo não se imitava: ele simplesmente existia, espalhando humor e delicadeza pelo jornal de domingo, pela crônica de rodapé, pelo silêncio que deixava entre uma piada e outra.

O riso dele continua aqui, dentro da gente. E cada vez que rimos de uma bobagem cotidiana, há um pedacinho de Veríssimo soprando ironia no nosso ouvido. Como se dissesse, com aquele humor discreto: “calma, a vida não é só tragédia — também é trapalhada”.

João Pessoa, agosto de 2025.