O DIA EM QUE BRASÍLIA FALOU EM VOZ ALTA – Artigo de Demétrius Faustino

O DIA EM QUE BRASÍLIA FALOU EM VOZ ALTA

 

Demétrius Faustino

 

Brasília acordou nesse 11 de setembro de 2025 com sentença na praça — dessas que não cabem num post de rede social nem se espremendo as vírgulas. O ar seco da cidade parecia suspenso entre o Eixo e a Praça dos Três Poderes, como se o céu quisesse ouvir primeiro. Na 1ª Turma do Supremo, quatro votos cruzaram o Rubicão e um ficou na margem, olhando a correnteza passar. O placar não fez barulho, mas o silêncio depois dele fez.

Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses, início em regime fechado, mais multa. A caneta não tremeu no número, mas todo o país sentiu o peso — não apenas da pena, e sim do que ela diz sobre a linha que separa governo de aventura. No telão do plenário, a narrativa apareceu em letras frias, sem adjetivo, como se o Direito preferisse falar baixo quando a história exige volume: tentativa de golpe de Estado; organização criminosa armada; tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; dano qualificado; deterioração de patrimônio tombado.

É duro ler isso numa linha só — a garganta enrosca —, mas foi exatamente assim, compactado, que o país ouviu: como quem recebe um telegrama longo demais para o papel. Nos cafés da Asa Norte, o garçom aumentou o volume da TV; nos grupos de família, cada vírgula virou trincheira; nos corredores de mármore, a liturgia seguiu, com a solenidade de quem sabe que ato jurídico também é rito. Ao lado de fora, o vento andava: bandeiras se moviam devagar, como se conferissem a ata.

E Brasília, que já viu de tudo, ficou por um instante com cara de estreia: o mapa das convicções redesenhado, as perguntas mais rápidas que as respostas, e aquela sensação antiga de que a democracia, para continuar de pé, precisa todos os dias provar que sabe dizer “não”.

Do outro lado do balcão, a defesa respondeu com o previsível — indignação e promessa de recursos “até internacionalmente”. Brasília conhece esse roteiro: primeiro, embargos de declaração, para aparar arestas do acórdão; depois, a tentativa de deslocar o caso para o Plenário, com o charme antigo dos nomes latinos e das súmulas. Só que o relógio processual não é um relógio suíço: embargos não têm efeito suspensivo automático; prendem-se a hipóteses específicas e a uma dose de verossimilhança. E os tais embargos infringentes — a bala de prata que muita gente invoca — só entram em cena quando há pelo menos dois votos absolutórios no mesmo ponto. Faltou um.

No curto prazo, portanto, o futuro de Bolsonaro é um corredor de portas com placas conhecidas: “publicação do acórdão”, “embargos”, “eventual execução”. É a etapa em que o Direito fala baixinho, por meio de prazos e petições, e a política grita lá fora. Enquanto o processo anda, cada lado do tabuleiro testa palavras de ordem. Uns chamam de justiça histórica; outros, de perseguição. Não haverá unanimidade no país onde nem o café é tomado do mesmo jeito.

No médio prazo, a pergunta muda de voz: quem herda o espólio político de Bolsonaro? Lideranças do campo conservador farejam o vazio e disputam o microfone — herdeiros de sangue, de palanque ou de algoritmo. A direita brasileira, calejada em rachas e recomposições, talvez experimente um interregno: o período em que o líder não some, mas também não comanda a marcha. O bolsonarismo, fenômeno que misturou antipetismo, segurança pública e uma estética de confronto, tende a se reorganizar em torno de símbolos — e símbolos, todos sabemos, não precisam de alvará judicial.

No longo prazo, a linha que fica é institucional. O país que aprendeu a conviver com crise em série talvez esteja aprendendo uma lição mais silenciosa: quando a Constituição é chamada, ela atende — com todos os seus defeitos, morosidades e arestas. Não há final feliz nas páginas de um acórdão; há, quando muito, a reafirmação de que regras valem inclusive para quem já segurou a faixa presidencial. E isso, convenhamos, é menos épico do que necessário.

A crônica termina, o processo não. O papel volta à mesa do relator como quem retorna a um balcão conhecido: carimbo, juntada, vista, prazo. As petições ganham numeração como capítulos de um romance jurídico — e cada número esconde uma aposta, um verbo no condicional, um pedido de reconsideração que tenta reabrir portas já sem dobradiça. A história — teimosa — segue escrevendo rascunhos à caneta azul do protocolo: entre um despacho e outro, o país respira, discute, exagera, volta atrás.

Nesses rascunhos, o futuro de Bolsonaro é um labirinto com placas trocadas. Há passagens que prometem atalho e devolvem ao mesmo corredor; há recursos que soam como senha mágica e terminam em eco. O minotauro aqui não é um monstro: é o tempo processual, paciente e obtuso, que não corre por desejo nem freia por grito. Quem conhece o prédio sabe: o fio de Ariadne não é coragem, é procedimento.

Fora dos autos, a disputa de narrativa não espera publicação no Diário. Ela amanhece na timeline, salta para o telejornal, vira palavra de ordem no adesivo do carro. Hashtags ensaiam maioria, memes simulam jurisprudência, e cada lado jura ter a versão definitiva dos fatos — como se a realidade coubesse num carrossel de três telas. A política, que nunca foi tímida, tenta a cena final todo dia, mas o enredo insiste em voltar para as páginas miúdas: acórdãos, votos, fundamentos, divergências.

Enquanto isso, o Brasil — mais exigente — precisa manter aceso um acordo simples, quase banal de tão óbvio: perder continua fazendo parte do jogo; romper as regras, não. Isso não tem brilho de epifania, não estampa camiseta, não rende dancinha. É só a base da casa. E casa, quando tem base, suporta vendaval, reforma e até barulho de vizinho.

No fim da tarde, quando as luzes do prédio se apagam e sobra o reflexo do espelho d’água, nada de definitivo acontece: o processo segue, as convicções cochicham, os prazos contam sílabas. A crônica termina aqui para caber na página. O resto — aquilo que realmente decide como vamos atravessar a noite — continua no livro grande que a Constituição mantém aberto sobre a mesa: páginas gastas, margem anotada, e uma frase que a gente nunca deveria esquecer de ler em voz alta antes de dormir.

João Pessoa, 11 de setembro de 2025.