MANUAL PRÁTICO DE PALAVRÕES EM CAMPO
Demétrius Faustino
Houve um tempo — lembra Ruy Castro — em que o futebol guardava seus segredos como quem protege uma confidência antiga. As discussões entre jogadores, os xingamentos sussurrados, os arranca-rabos mais acalorados ficavam ali, circunscritos ao retângulo verde, dissolvidos no rugido das arquibancadas ou engolidos pela distância que separava o torcedor da cena real. Via-se o empurrão, o dedo em riste, o olhar atravessado — mas não se ouvia o conteúdo. Havia um certo pudor acústico no futebol, uma zona de silêncio onde tudo acontecia sem testemunha plena.
Hoje, não. Hoje, o futebol também se escuta.
Como observa o próprio Ruy Castro, com a ajuda da televisão e da leitura labial, o que antes era inaudível virou quase legenda ao vivo. E assim, de lance em lance, o público vai sendo apresentado a um repertório linguístico que atravessa fronteiras — do português ao castelhano, sempre com a mesma delicadeza de um chute na canela.
Foi assim que, num jogo recente, um craque brasileiro resolveu demonstrar sua fluência internacional em meio à irritação. Entre uma falta e outra, desfilou expressões pouco acadêmicas, daquelas que não entram em livro didático, mas que o torcedor agora aprende quase sem querer. E, como ironiza o imortal da ABL, até o vocabulário da arquibancada acaba saindo enriquecido — ainda que por caminhos duvidosos.
Mas nem sempre foi assim. O cronista lembra que, no passado, os jogadores até discutiam entre si, mas diante do árbitro havia uma contenção quase reverente. Os juízes eram figuras mais velhas, experientes, com autoridade suficiente para encerrar qualquer discussão com um olhar. Um nome emblemático dessa época foi Mário Vianna, que apitava com a firmeza de quem não admitia contestação.
Também pudera, Mario Vianna foi soldado da torturadora Polícia Especial de Getúlio Vargas no Estado Novo.
Hoje, o cenário mudou. Os árbitros são mais jovens, mais próximos da idade dos jogadores — e, talvez por isso, tratados com uma informalidade que beira o desrespeito. De fato, já não existe o “Seu juiz”. O que se ouve são interpelações diretas, carregadas de indignação e palavrões, como se a autoridade fosse apenas mais um participante da conversa.
Ainda assim, vez ou outra, o futebol nos oferece pequenas lições silenciosas. Em meio ao caos das palavras, surge o contraste de quem não precisa falar alto para se impor. Um árbitro que não responde, não se exalta, apenas sustenta o olhar — e, com isso, resolve a cena.
No fim, também cremos que, o futebol talvez não tenha mudado tanto no que se diz dentro de campo. A matéria-prima continua a mesma: nervos à flor da pele, disputa por centímetros, orgulho ferido, vaidade em ebulição. O que sempre existiu — a palavra atravessada, o insulto rápido, a resposta atravessada — já fazia parte do jogo, tão essencial quanto o passe bem dado ou o chute no ângulo.
A grande diferença é outra: agora, nós ouvimos tudo.
E ouvir muda tudo. Porque aquilo que antes ficava restrito aos protagonistas, como um idioma próprio do gramado, hoje se revela ao público sem legenda suavizadora. O torcedor deixa de ser apenas espectador do movimento e passa a ser também testemunha da linguagem — crua, impulsiva, muitas vezes nada nobre. O jogo se desnuda não só em sua técnica, mas em sua humanidade mais imediata.
E, ao ouvir, descobrimos algo desconcertante: entre um passe e um gol, entre a genialidade e o erro, o futebol sempre foi muito mais falado — e muito menos educado — do que imaginávamos. Talvez o encanto não tenha diminuído; apenas perdeu o véu.
João Pessoa, abril de 2026.
