MADE IN BRASIL, TAXADO NOS EUA
Demétrius Faustino
No porto de Santos, os contêineres parecem contemplativos, como se meditassem sobre o destino do país. Cafés, carnes, têxteis e até fardos de papel aguardam imóveis, alinhados em filas silenciosas, refletindo se ainda terão futuro nos Estados Unidos ou se vão apenas mofar sob o sol paulista, vítimas das alfândegas douradas do “América First”. O vai e vem dos guindastes parece mais lento, e os estivadores, acostumados ao barulho metálico do comércio mundial, agora olham para o horizonte como quem espera um milagre — ou, pelo menos, uma isenção tributária de última hora.
A partir de 6 de agosto, o destino dessas mercadorias ganha um novo capítulo: entra em vigor a tarifa de 50% sobre a maioria dos produtos brasileiros, uma espécie de pedágio alfandegário que Trump vestiu de política de proteção econômica. As exceções são poucas e calculadas — petróleo, aeronaves, suco de laranja e alguns eletrônicos —, bens estratégicos para os EUA ou simplesmente vitais para que os americanos não sintam falta do café da manhã à americana ou de seus voos internacionais. O resto, que representa o suor diário de exportadores médios e pequenos, paga o pato.
Ali, no maior porto da América Latina, cada contêiner parece carregar não só mercadorias, mas também uma pergunta incômoda: quem vai arcar com a conta dessa guerra de vaidades diplomáticas? Enquanto a economia respira fundo, entre rumores de represálias e reuniões emergenciais em Brasília, os navios permanecem imóveis — e o Brasil, tarifado, parece esperar que o próximo vento traga mais do que maresia.
Do lado de lá, Trump comemora ao microfone, com aquele sorriso largo de apresentador de reality show e a gravata vermelha quase roçando no chão:
“Quem processa o aliado ganha um presente americano!”
O público vibra, as bandeirinhas tremulam em sincronia, e os assessores repetem o bordão como se fosse refrão de campanha. A frase, dita em tom de piada, vem com endereço certo: o julgamento de Bolsonaro virou justificativa oficial para o tarifaço. Na narrativa americana, punir o Brasil agora é gesto patriótico, e cada contêiner parado em Santos vale pontos nas pesquisas de aprovação.
Enquanto isso, do lado de cá, na conexão trêmula do celular de um exportador em Ribeirão Preto, o clima é bem menos festivo. No lugar de aplausos, pipocam notificações de bancos e e‑mails automáticos: alerta de queda do dólar, aviso de tarifas adicionais de até 40% e contratos cancelados que não caberiam nem no maior caixote de laranja.
Na tela, números vermelhos; no peito, o peso do fracasso. A cada clique, o exportador sente que a guerra diplomática travada a milhares de quilômetros é paga, aqui, em boletos e silêncio.
No cafezinho da esquina, ouve-se queixas de clientes brasileiros tentando adivinhar se o café vai subir de novo, agora por causa de um tributo que já começou a operar antes mesmo de o contrato ter sido assinado nos EUA. Ironia: o Brasil produz 30% do café consumido nos EUA — e é exatamente esse café que não recebeu isenção nenhuma
Hashtags como #Vampetaço bombam nas redes: brasileiros postam gifs e memes do Vampeta vestido de taxador gringo, em protesto satírico contra a nova onda tarifária
Lula responde firme, em cadeia nacional, com aquele timbre rouco de indignação e pragmatismo: reafirma a independência da Justiça brasileira e rejeita qualquer interferência estrangeira — mesmo que isso custe um vinagre nas exportações. Entre uma frase e outra, fica claro que o Brasil não aceitará pagar a conta política do passado recente sem reagir.
No mesmo pronunciamento, o presidente anunciou que o governo recorrerá à OMC, que habilitará tarifas recíprocas e que estuda restringir a remessa de lucros de empresas americanas no Brasil. Brasília acendeu as luzes do Planalto e da Esplanada como se fosse noite de final de Copa: ministros correm, técnicos consultam planilhas, e diplomatas ensaiam notas oficiais bilíngues — em português e em ironia.
Enquanto isso, no Congresso, o jogo virou. Aliados se abraçam à retórica da soberania, evocando Tiradentes e Itamaraty como se fossem personagens da mesma novela; adversários, por sua vez, miram nas câmeras com a pergunta que cola: “Quantos empregos vão embora com essa valentia?”. Entre aplausos, vaias e discursos inflamados, a crônica do tarifaço vai tomando corpo — e transformando economia, política e diplomacia em um grande teatro onde ninguém quer ser o vilão, mas todos precisam de plateia.
Imagine um trabalhador na portaria do frigorífico em Uberaba, olhando para os bois que deveriam ir para os EUA, mas agora estagnados: “Tá tudo indo pro vinagre”, resmunga, sabendo que esse vinagre vai subir de preço também — porque os americanos descontam a tarifa no preço final. Ou pense no pequeno empresário no Sul que monta calçados: “Se o Trump quer que a “Garota de Ipanema” fique cara por lá, fazer o quê… Mas quem paga essa conta somos nós, comenta.
A crônica se fecha com a pergunta incômoda, repetida até em fila de banco ou fila do pão: até onde vale a “dignidade diplomática” quando o bolso pesa mais que o discurso?
João Pessoa, agosto de 2025.
