ENTRE MÍSSEIS E MESSIAS – Novo artigo de Demétrius Faustino

ENTRE MÍSSEIS E MESSIAS

 

Demétrius Faustino

 

Jesus não tem passaporte. Nunca teve. Nasceu em Belém, foi refugiado no Egito, morreu em Jerusalém — sem jamais cruzar uma fronteira que não fosse a do coração humano. Viajou sem carimbo, sem visto, sem escolta diplomática. E, ainda assim, em pleno 2025, dizem que Ele anda envolvido numa guerra entre Israel e Irã. Ou pelo menos, é o que juram, entre uma explosão e outra, entre uma sanção internacional e um míssil hipersônico.

De um lado, Israel se arma até os dentes, como quem espera o Apocalipse há dois mil anos — afinal, não é de hoje que a profecia virou política pública, e que os textos sagrados se tornaram manuais de geopolítica. Do outro, o Irã levanta os punhos em nome de Alá, mas com um olho nas centrifugadoras e outro nas escrituras, como se entre a surata e o silício houvesse algum segredo divino.

No meio do mapa, voam drones com precisão cirúrgica e consequências caóticas. Morrem civis que não oraram o suficiente, não fugiram a tempo ou simplesmente estavam no lugar errado — que, ali, parece ser qualquer lugar. Os discursos inflamados sobem aos céus como incenso tóxico, invocando bênçãos sobre arsenais, bênçãos sobre tanques, bênçãos sobre a vingança. É um culto de fumaça e sangue, onde o altar é digital e os sacrifícios, sempre humanos.

E onde está Jesus nisso tudo?

Estão tentando colocá-lo no comando de algum lado, como se o Reino dos Céus fosse uma coalizão estratégica. Uns dizem que Ele é propriedade privada do Ocidente cristão-capitalista — um CEO celeste. Outros que era apenas um profeta do Oriente Médio, esvaziado de divindade, útil enquanto símbolo. Há quem deseje ardentemente Sua volta, mas desde que venha com espada flamejante, um drone invisível e um plano de governo. Ignoram que Ele preferia abraços a espadas, multiplicava pão, não urânio enriquecido, e dizia para dar a outra face — o que, convenhamos, em tempos de guerra eletrônica e mísseis balísticos, é um conselho quase suicida.

Imagino Jesus descendo hoje numa zona de conflito. Sem pompa, sem holograma messiânico. Barba por fazer, sandálias cheias de poeira, túnica manchada de sol. Um olhar cansado — não pela eternidade, mas pelo tédio de ver o mesmo teatro repetido há milênios. Olharia generais, aiatolás, ministros e soldados com aquela tristeza mansa, meio divina, meio humana — como quem já viu esse roteiro antes. E viu. No Gólgota. Em cada esquina do planeta.

Talvez escrevesse na areia, entre sirenes e estilhaços, algo simples como: “Amai-vos uns aos outros”. E ririam d’Ele, como sempre. “Esse aí é pacifista demais”, diriam os comentaristas de segurança. “Inútil”, escreveriam nos fóruns de geopolítica. “Fraco”, murmurariam os analistas que confundem justiça com retaliação. E então Ele sumiria novamente, como brisa num campo minado.

Porque Jesus não entra nas guerras. Nunca entrou. Os homens é que insistem em arrastá-lo para elas — armam Seu nome com foguetes, blindam Suas palavras com tanques, canonizam Suas contradições com decretos e embargos.

E cada vez que o fazem, crucificam-no de novo — só que agora, ao som de foguetes, com transmissão ao vivo, patrocínio estatal e trending topics.

Sim, Ele continua sendo traído por moedas. Mas agora são digitais. E as cruzes vêm em série, estampadas com bandeiras.

João Pessoa, junho de 2025.

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