ELES ESTÃO EM TODA PARTE – Novo artigo de Demétrius Faustino

ELES ESTÃO EM TODA PARTE

 

Demétrius Faustino

 

A palavrapuxa-saco vem provavelmente da época do Brasil Colônia, quando os oficiais do Exército, ao serem transferidos para outra cidade, chegavam levando os seus pertences num saco de pano. E quando procuravam um lugar para assentar, sempre aparecia alguém querendo pegar o saco para ajudá-los, de olho na recompensa ou em qualquer benefício.

Sobre o tema, crônicas, artigos e outros escritos, são unânimes em afirmar que a rotina brasileira mais frequente adora o exercício da bajulação. Diante de qualquer minúsculo poder, tornam-se propensos aqueles que têm uma espinha dorsal benevolente, gentil. Ajoelham-se como se estivessem na consagração da eucaristia, exaltam, rendem homenagens. Nada demais, se todas elas fossem corretas. E o mais reiterado é a aposta num ato, seja qual for, de retribuição. Nem que seja um diminuto prestígio da convivência com alguém que se distingue dos demais.

Aliás, um ótimo lugar para dar voz a bajulação estão nos avanços tecnológicos. De fato, as redes sociais, não apenas deu voz, mas se empenhou em dar intensidade e aumentar a quantidade de chaleiristas, e esse avanço foi capaz de aumentar o volume desses bajuladores com uma velocidade inesperada.

Mas essa vocação de elogio em excesso de muitos que optam pelo escancarado ofício da gratuita e grosseira adulação a poderosos, não é de hoje. Muito pelo contrário, a História do Brasil está repleta de episódios assim, e que prosperam e atravessam gerações. Trata-se de uma característica da natureza humana. Ou melhor, para não generalizar, digamos que o puxa-saquismo pertence à personalidade de determinados indivíduos. Vejamos alguns exemplos, por época:

Tido como um dos pais do conservadorismo brasileiro e do direito comercial, José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, por exemplo, tinha entre seus adjetivos a excelência na bajulação. Escritor produtivo, político influente, não economizava nos elogios a D. João V e D. Pedro I.

Outro exemplo, e este é clássico, é do personagem Dwight Schultz do seriado The Office. Bajulava seu chefe ao extremo, mas na verdade queria o lugar dele.

Em entrevista à revista Educação Pública, o blogueiro Marcello Cabral, que escreveu a crônica “Puxa-saquismo genético, afirma: “A irresistível necessidade de bajular, sobretudo alguém em posição mais influente que a do sujeito da adulação, certamente é um traço de personalidade. Mas, como a maioria das características de um indivíduo é de fundo genético, herdadas e transmitidas, penso que o mesmo possa se aplicar ao puxa-saquismo. Talvez precisamente por isso, que se trate de atributo ‘irresistível’”.

O fato é que, quando algo valoroso é realizado por um bajulador, este singulariza de logo. Ou seja, a evidência é dele e não da ação realizada. Enquanto isso, o elemento a ser bajulado recebe predicados que não possui. A história real, aquela que quase nunca é contada, acaba sepultada. Para um puxa-saco o que menos importa é a verdade, mas tão somente o interesse pessoal e imediato.  

Enfim, apesar de um vasto arquivo de versículos bíblicos alertando para o poder funesto e destrutivo do puxa-saco, eles estão no coração e no leito da nossa pátria.

João Pessoa, março de 2023.