DEMOCRACIA NO BANCO DOS RÉUS
Demétrius Faustino
Na manhã que se anuncia em Brasília, os ministros de toga preta entram em cena como personagens de um drama inédito na história republicana. Do outro lado, um ex-presidente, já sem a faixa, mas ainda cercado por aplausos fiéis, aguarda o veredito de sua história. Não é apenas Jair Bolsonaro que está em julgamento — é a própria democracia brasileira que se vê refletida nesse espelho de cristal rachado.
O caso é conhecido. Depois da derrota de Bolsonaro em 2022, o país é atravessado por correntes subterrâneas: boatos se multiplicam como erva daninha, bravatas ecoam em púlpitos e palanques, movimentos obscuros que, à sombra, corroem a confiança nas urnas — esse objeto tão simples, de plástico e chip, mas que carrega o peso de uma nação inteira.
Não é apenas a política que se contamina. As conversas de família, as praças, as igrejas, os grupos de WhatsApp: tudo se torna campo de batalha. A verdade perde seu lugar, e cada frase se transforma em pólvora à espera de faísca.
Mas quem não se lembra do 8 de janeiro. Brasília, tão acostumada ao ritmo burocrático de carimbos e despachos, é sacudida pela fúria descontrolada. O verde-amarelo das bandeiras se confunde com o verde-oliva da memória autoritária. Portas arrombadas, vidraças despedaçadas, móveis históricos tombando sob o peso de botas e paus. Símbolos da República são profanados como se a história pudesse, de fato, ser derrubada a marretadas.
As imagens correram o mundo: ministros se abrigando, salões saqueados, plenários transformados em trincheira. A nação, estarrecida, se viu em um espelho trincado.
E a pergunta surge incômoda: até onde resistem as instituições de um país jovem em sua democracia? Qual a espessura do verniz civilizatório que chamamos Estado de Direito? Será apenas um pacto de papel, sujeito ao rasgo da primeira tempestade, ou já terá raízes fundas o bastante para suportar a maré da intolerância?
Agora, às vésperas da votação, o Supremo Tribunal Federal segura a caneta que pode riscar para sempre o nome de Bolsonaro do tabuleiro político. Mas a pena que se ergue ali não escreverá apenas sobre um homem: escreverá sobre um modo de governar pelo confronto, pelo descrédito, pela aposta no caos. Cada voto que será anunciado pretende recolocar um tijolo na muralha abalada da República.
Enquanto isso, nas ruas, o Brasil permanece dividido. Uns clamam por anistia, outros pedem punição exemplar. Nas mesas de bar, o assunto se mistura ao futebol e ao preço do feijão. Nos corredores do Congresso, cálculos eleitorais se confundem com o cheiro de cafezinho requentado. E na diplomacia, o país tenta se equilibrar entre tarifas, sanções e olhares atentos de quem observa, à distância, este laboratório tropical de democracia à prova de fogo.
Talvez estejamos vivendo um desses raros momentos em que o futuro espreita por cima do ombro do presente. Porque, se o julgamento terminar apenas em condenação ou absolvição, terá sido pouco. O que realmente importa é a lição que ficará: a democracia não é imortal; precisa ser defendida todos os dias — no plenário, na praça, na sala de aula e até nas conversas miúdas de família.
No fundo, o Brasil aprende que golpes não se dão apenas com tanques nas ruas, mas também com palavras, narrativas e silêncios. E que resistir exige mais do que votos no STF: exige cidadania vigilante.
Quando a sessão terminar, e o país voltar à rotina de buzinas, boletos e boletins de urna, talvez reste em nós a sensação incômoda — e ao mesmo tempo solene — de que participamos de um capítulo que não se repete. Brasília retomará seu ruído peculiar: o trânsito lento, o sobe-e-desce de gabinetes, a pressa de servidores cruzando a Esplanada. Nas casas, o jantar será servido como sempre; no noticiário, o julgamento disputará atenção com gols da rodada e previsões de chuva.
Mas, por trás da aparência de rotina, algo ficará gravado. Porque não será apenas Bolsonaro a ocupar o banco dos réus — ali também se sentará a democracia brasileira, frágil e teimosa, jovem e já calejada. E cada voto, cada palavra, cada gesto dos ministros servirá menos para condenar ou absolver um homem, e mais para medir até onde nossas instituições suportam o peso da história.
Talvez, daqui a décadas, os livros didáticos resumam tudo em linhas secas, como costumam. Mas quem vive estes dias sabe: o que está em jogo não cabe em parágrafos — corre no sangue, no medo e na esperança de uma nação inteira.
Gostemos ou não, seremos testemunhas de uma democracia que se julga a si mesma — e que, ao se erguer do banco dos réus, precisará provar que ainda é capaz de caminhar. João Pessoa, setembro de 2025.Parte superior do formulário
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