Demétrius Faustino
Estão pedindo o impeachment de Alexandre de Moraes, e não por algum escândalo financeiro que tenha dilapidado cofres públicos, nem por um conluio silencioso com empreiteiras ou contratos suspeitos; não se trata de malas de dinheiro, nem de contas secretas no exterior, mas, segundo observam os mais atentos, por algo que beira o absurdo e soa como um tapa na cara do bom senso: ele estaria sendo acusado, vejam só, de cumprir exatamente aquilo que jurou respeitar — a Constituição.
É como se, de repente, fazer valer as leis do país se tornasse um ato criminoso. Como se defender as instituições fosse um gesto de rebeldia. O mundo às avessas: o juiz que julga conforme a Carta Magna vira réu no tribunal da opinião inflamada. Há quem grite nas praças e nos microfones, não contra a corrupção, mas contra a própria ideia de que exista um limite imposto pela ordem democrática.
E assim, num cenário que parece saído de um romance distópico, vemos surgir discursos inflamados, moções apressadas, pedidos de cassação movidos não pela defesa da República, mas por um desconforto íntimo com as regras do jogo. Não há denúncia de propina, não há acusação de favorecimento pessoal — apenas o incômodo de que alguém tenha ousado aplicar a lei, ainda que isso contrarie interesses de poderosos ou de turbas que se julgam acima de qualquer norma.
O episódio, além de curioso, é revelador: mostra o quanto se distorceram os valores e o quanto a lógica se perdeu na neblina de um tempo em que cumprir a Constituição virou, para alguns, uma atitude subversiva. Talvez devêssemos perguntar: em que momento passamos a achar normal perseguir quem faz exatamente o que deveria fazer?
Enquanto isso, dentro do Supremo, Alexandre de Moraes despacha processos com a paciência de quem varre folhas caídas de um quintal enorme e ventoso. Não se vê nele ar de pop star, tampouco de vilão. Apenas um homem que, com sua toga como armadura, insiste em fazer o óbvio — ainda que o óbvio, neste país, soe subversivo.
A pergunta que não quer calar ecoa pelos corredores do poder, nos cafés, nas rodas de conversa das redes sociais: agora é crime cumprir a Constituição?
E a cada vez que ela é repetida, parece mais absurda e ao mesmo tempo mais necessária.
O cronista que vos escreve não traz resposta definitiva, apenas o incômodo, o nó na garganta diante do espetáculo contraditório que se desenrola diante de nós. Porque, se a Constituição serve apenas para os dias de festa, para os discursos solenes e para as fotografias emolduradas, mas não para os dias de conflito, para as horas difíceis em que ela precisa mostrar sua força e proteger direitos, então ela se transforma em mero enfeite, relíquia muda em uma vitrine empoeirada de museu.
E se quem ousa aplicá-la é punido, se quem faz valer suas palavras escritas com tanto suor e sacrifício se torna alvo de retaliações, então não estamos mais diante de um simples embate político, mas de um perigoso sinal vermelho para a democracia, um aviso de que os pilares da República podem estar se corroendo silenciosamente.
E se cumprir a Constituição passou a ser motivo de ameaça, talvez não seja apenas um ministro quem está sendo julgado — talvez seja a própria ideia de justiça, a noção de equilíbrio entre os Poderes, o compromisso coletivo com as regras do jogo democrático que, pouco a pouco, vai sendo levada ao banco dos réus.
João Pessoa, julho de 2025.
