A ORDEM ÀS AVESSAS – Artigo de Demétrius Faustino

A ORDEM ÀS AVESSAS

 

Demétrius Faustino

 

Dizem que, quando a mulher se casa, já vai pronta para o campo de batalha. Não contra o marido, mas contra a bagunça que ele, dizem, inevitavelmente espalhará pela casa. Sapatos no meio da sala, toalha molhada sobre a cama, camisa esquecida na cadeira—o folclore doméstico está todo aí, repetido geração após geração. Ela, por sua vez, entra no matrimônio munida de vassoura, método e convicção: guardiã oficial da ordem.

Foi assim até o dia em que a estatística resolveu tirar férias. Porque, nessa história, o noivo era o tipo de pessoa que mede o espaçamento dos cabides com dois dedos e dobra as toalhas como quem dobra mapas—sem deixar uma esquina fora do lugar. O sal ficava ao lado da pimenta, mas não de qualquer jeito: havia uma fila invisível de potes idênticos, rotulados e alfabetizados como uma pequena biblioteca de especiarias. “Cúrcuma” antes de “Cominho”, “Orégano” depois de “Noz-moscada”. Ele tinha, inclusive, um estojo para baterias, outro para parafusos, e um terceiro para parafusos que pareciam baterias.

Ela, ao contrário, colecionava pequenas tempestades de papel e carregadores de telefone celular. Deixava uma agenda aberta sobre a mesa, um copo com marca de batom sobre a mesma, e, sobre o copo, uma ideia recém-nascida que precisava ficar ali, respirando, antes que a rotina viesse dobrá-la no meio. A mesa da sala era um mapa do tesouro: cadernos com setas, post-its com promessas, um ingresso antigo preso com clipe, uma foto sem moldura. “Amor, essa pilha tem lógica”, dizia. “Tem, sim”, respondia ele, paciente. “É a lógica da inspiração.”

No começo, brigaram como quem disputa fronteira: ele perseguindo migalhas com a mesma disciplina com que os bandeirantes perseguiam rios; ela abrindo clareiras de imaginação no território meticulosamente demarcado das prateleiras. Ele endireitava quadros milimetricamente, ela os entortava um pouquinho — “fica mais vivo assim”. Ele recolhia a toalha da cadeira; ela deixava a cadeira feliz por ter uma companhia. E, no vai e vem, foram descobrindo que a guerra não era necessária: bastava aprender a dança.

Criaram, então, um acordo de paz com cláusulas bem-humoradas. “Sexta é dia de sofá livre” — livre de culpas, de almofadas alinhadas, de controles remotos enfileirados como soldados. “Domingo à noite, missão resgate” — cada coisa volta para sua casa, inclusive os pensamentos. Ele aprendeu a conviver com o charme do improviso: uma xícara fora de lugar pode, às vezes, ser um convite para um café fora de hora. Ela descobriu o conforto de uma gaveta que sempre devolve o que guarda: ideias rendem mais quando sabem onde dormir.

No fim, a casa encontrou sua coreografia: ele guarda o mundo; ela o faz acontecer. Quando um exagera, o outro desarma. E o campo de batalha virou sala de estar: onde a ordem e a bagunça, em vez de inimigas, se revezam como boas anfitriãs. Ele percebeu que a verdadeira ordem é saber onde a felicidade se espalha—mesmo que seja no meio da sala. Ela entendeu que a verdadeira bagunça é viver sem o riso dele ao notar um quadro torto. E assim, entre o prumo e a poesia, foram descobrindo que casamento não é guerra de trincheiras; é jogo de cintura.Parte superior do formulário

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E ela? Ah, ela era a bagunceira. Mas não assumia. Como admitir que a desorganização não era dele, mas dela? Como aceitar que, no palco da vida a dois, os papéis estavam invertidos? Na cabeça dela, era quase contra as leis da natureza: homem bagunça, mulher arruma.

Foi então que se instalou em casa uma espécie de comédia silenciosa. Ele ajeitava as coisas, ela espalhava. Ele suspirava diante do caos, ela se espantava diante da ordem. No fundo, era como se cada um fosse um planeta girando em órbitas diferentes, mas ligados pela mesma gravidade.

E talvez seja essa a lição escondida nessa história: o casamento não é sobre quem organiza ou quem bagunça, mas sobre quem consegue rir das manias do outro. Ele, paciente, seguia alinhando a casa. Ela, distraída, continuava semeando desordem. No meio disso, descobriram que a maior ordem não estava nas gavetas bem dobradas nem no caos dos papéis soltos — mas no fato de permanecerem juntos, mesmo sendo tão diferentes.

No fim, amor é isso: uma bagunça bem organizada.

João Pessoa, setembro de 2025.