A CHUVA QUE INSISTE EM FICAR – Novo artigo de Dmétrius Faustino

A CHUVA QUE INSISTE EM FICAR

 

Demétrius Faustino

 

Mais uma vez acordamos com o rumor da água ensaiando um concerto. Não é aquela chuva tímida que faz carinho na telha, não. São palavras densas, profundas, como se o céu soltasse um choro contido — mas pesado, um soluço antigo guardado por meses de calor. O barulho se infiltra pelas frestas da madrugada, mistura-se ao som distante de sirenes e ao coaxar dos sapos, que parecem aplaudir a sinfonia.

Em apenas 19 dias de julho, já caíram mais de 230 mm de chuva. É quase 150 % da média esperada para o mês inteiro. Não é uma chuva qualquer, dessas que chegam pedindo licença e molham a terra devagarinho. É chuva de respeito, dessas que não aparecem com educação: vem rasgando a via como faca em tecido, invade quintais, bagunça vidas, carrega folhas, sonhos e telhas soltas pelo caminho.

A cidade parece um imenso anfiteatro de águas. No Viaduto do Cristo, o trânsito vira desfile aquático: carros avançam devagar, como pequenos barcos teimosos, e motociclistas empurram suas máquinas com a água batendo nos joelhos.

No Bancários, as poças se transformam em piscinas improvisadas. Crianças descalças, de short e camiseta, dão risadas enquanto jogam tampinhas na correnteza, como se aquilo fosse um grande parque aquático urbano. E, ali mesmo, uma lanchonete adapta a rotina: o balcão serve café enquanto a água bate na altura dos tornozelos.

Nos bairros como José Américo e Geisel, a história é mais dura. Casas viram ilhas temporárias, com móveis empilhados sobre mesas, colchões enrolados e um cheiro de umidade que gruda nas paredes. A rua, antes ponto de encontro, agora é um rio barrento onde só se passa de barco ou de coragem. Vizinhos se ajudam com cordas, baldes e palavras de conforto:

— Vai passar… segura firme aí.

E assim a cidade segue, se reinventa entre enchentes e afetos, entre perdas e pequenos gestos de solidariedade. Porque, mesmo quando a água insiste em transformar tudo em correnteza, João Pessoa insiste em transformar tudo em história.

No mercado da Torre, o vendedor tenta empurrar guarda-chuvas, mas os clientes fogem da água como quem foge da própria sombra. No bar, as cervejas parecem gritar de prazer com a ressaca líquida do céu. “Se vai alagar, que alague com estilo”, brinca um senhor, sustentando o copo como bandeira de resistência.

Os meteorologistas do Inmet alertam que pode chover com mais vontade — ventos fortes, calor e umidade exasperante. E a gente se prepara para mais dias de lama nas ruas, com a expectativa do fim do inverno para a tomada de providências que, com certeza serão tomadas, e histórias que se repetem como refrão de rádio.

Mas não estamos sozinhos. O Nordeste inteiro ouve a cantoria dessas águas — Pernambuco, Sergipe, Bahia — regiões inteiras em alerta, em luta contra a força da natureza.

E, no meio dessa tempestade, João Pessoa resiste. A cidade que nasce sobre as águas, sustentáculo de manguezais e rios, agora revive sua ligação ancestral com a chuva. Molhada, às vezes amedronta, mas vive. Cada enxurrada é oportunidade de reencontrar a solidariedade: vizinho ajuda vizinho, grupos se organizam, mensagens de alerta disparam no celular.

Assim segue nossa crônica molhada: cheia de lama e esperança, cheia de ruas partidas e de abraços improvisados. A chuva insiste em ficar — e, com ela, vem também o barulho constante das goteiras, o cheiro de terra encharcada, o vaivém das sirenes e o coração acelerado de quem teme perder o pouco que tem. Ainda assim, no meio desse cenário turvo, brota um fio de fé que teima em não se apagar.

É curioso como, mesmo diante da força da água, as pessoas encontram um jeito de florescer. O menino ajuda o vizinho a carregar os móveis, a senhora prepara um café para quem passa a noite de vigília, o motorista de ônibus espera os passageiros atravessarem com segurança. São gestos pequenos, mas que cintilam como luzes de vaga-lume na madrugada chuvosa.

A cidade, encharcada, se reinventa a cada manhã. Entre as poças, refletem-se não apenas as fachadas e os postes, mas também os sonhos de quem, apesar de tudo, não deixa de acreditar no amanhã. A chuva, mesmo pesada, não consegue lavar a memória afetiva das ruas, dos mercados, dos encontros.

E então, diante do céu cinzento, só resta abrir a janela, sentir o vento úmido no rosto e dizer, com a serenidade de quem aprende a conversar com o tempo:
“Chuva, você pode até inundar o chão, mas não vai inundar o coração. Porque aqui, entre águas turvas e muros molhados, a esperança é impermeável.”

João Pessoa, julho de 2025.