A BLINDAGEM DA VERGONHA
Demétrius Faustino
PEC da Blindagem. O nome já parece título de filme da Sessão da Tarde: políticos engravatados correndo em câmera lenta, abraçados à Constituição como se fosse escudo de super-herói. Mas, na prática, o filme é bem diferente: não tem ação nem aventura — é mais uma comédia de gente privilegiada tentando se proteger dos próprios problemas.
Traduzindo: a tal “blindagem” não é para proteger a democracia, nem o cidadão comum que rala pra pagar conta. É um jeito elegante de dizer: “queremos regras que dificultem investigações contra nós mesmos”. Em vez de salvar o país, o roteiro mostra políticos salvando o próprio CPF.
Imagine a cena. O trailer começa com aquela voz grave de locutor de cinema: “Eles juraram defender a pátria… mas, na verdade, defendem a própria pele”. Entra o corte: deputados e senadores fugindo de CPIs como quem foge de zumbis, entrando em gabinetes escuros, onde o ar-condicionado congela a espinha, e a única arma disponível é a famosa “articulação política”.
O roteiro é previsível: no primeiro ato, falam em proteger as instituições. No segundo, descobrimos que a instituição protegida é o próprio mandato. E no terceiro, o clímax: a plateia descobre que a blindagem é só mais um escudo contra a fiscalização — e o povo, mais uma vez, é figurante sem fala, daqueles que aparecem ao fundo segurando bandeirinha.
E é claro que não faltam os clichês de sempre. O vilão é o “ativismo judicial”, pintado como monstro de filme B que aparece sempre que algum excelentíssimo se enrola. O mocinho? O próprio político, que se apresenta como vítima de uma perseguição tão cinematográfica que daria para transformar em série da Netflix: “O Julgado” — com novos episódios toda vez que a Polícia Federal bate à porta.
O detalhe mais saboroso é o figurino: ternos caros, gravatas cintilantes e aquele ar de santidade em véspera de votação. Parecem super-heróis de araque, só que em vez de salvar vidas, querem salvar a própria biografia — ou, pelo menos, adiar a cena do tribunal para depois da próxima eleição.
Se fosse Sessão da Tarde mesmo, o público já saberia o final: depois de muitas trapalhadas, o grupo aprende uma lição sobre amizade e honestidade. Mas aqui não tem lição nenhuma — só o velho roteiro da blindagem política, que não ensina nada além do que já sabemos: quem tem mandato se protege; quem não tem, que arque com o boleto.
No fundo, é como assistir a um filme repetido. A cada legislatura, mudam alguns atores, mas o roteiro é idêntico. Brasília adora remake: a PEC da Blindagem é apenas a versão atualizada de um longa-metragem que nunca sai de cartaz.Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário
No discurso, dizem que é para proteger as instituições. Bonito, não? Dá até vontade de aplaudir. Quase ouvimos o hino nacional ao fundo, os deputados de pé, mão no peito, lágrimas nos olhos. Mas basta riscar um fósforo perto da retórica que a maquiagem derrete, e a cena vira caricatura. O que se pretende blindar não é a democracia, é o CPF de gente graúda. É a velha mania brasileira: confundir mandato com passe livre, como se o título de eleitor viesse com selo vitalício de “não me toquem”.
É curioso como o vocabulário da blindagem é sempre grandiloquente: “garantias constitucionais”, “pilares da República”, “harmonia entre os poderes”. Mas, na tradução simultânea do plenário para a vida real, a frase fica mais simples: “ninguém mexe no meu, mas eu mexo no de vocês”.
O povo, claro, assiste a esse espetáculo com a paciência de quem já viu a mesma peça encenada cem vezes. Sabe quando o mágico tira o coelho da cartola e você já viu o fiozinho puxando o bicho por baixo? É isso. Só que, nesse caso, o coelho custa milhões em emendas parlamentares e o truque serve para encobrir investigações incômodas.
No fim, a PEC da Blindagem é o clássico jeitinho institucionalizado: transformar cargo em cofre, foro em escudo e voto em salvo-conduto. O eleitor vota achando que escolheu representante, mas descobre que elegeu alguém em busca do seguro mais caro do mercado: a blindagem política, modelo importado, com garantia estendida até o próximo mandato.
João Pessoa, setembro de 2025.
