QUANDO A ARTE ABRAÇA JOÃO PESSOA – Artigo de Demétrius Faustino

QUANDO A ARTE ABRAÇA JOÃO PESSOA

 

Demétrius Faustino

 

Há dias em que a cidade desperta com um brilho diferente, quase como se se lembrasse, enfim, de que também sabe ser poesia. Naquela sexta-feira, 5 de dezembro de 2025, João Pessoa amanheceu assim: com passos suaves, com o sol entrando pelas janelas antigas da Câmara Municipal e com o rumor discreto de que algo bonito estava prestes a acontecer.

As portas se abriram cedo, e quem chegava parecia entrar não em uma solenidade, mas em um palco sagrado onde a vida insiste em celebrar seus expoentes ainda vivos — como deve ser. A luz atravessava os corredores com a delicadeza de quem sabe que está em território de artista, e cada rosto presente trazia um brilho que só o afeto desperta.

No centro de tudo, sentava-se Bebé de Natércio, um artista que regenerou e purificou ocoração, retirando as mágoas e obstruções para que o amor possa fluir livremente. Francisco Barbosa Sobrinho para o mundo burocrático, mas Bebé, simplesmente Bebé, para a música, para os amigos, para a cultura e para todos que, em algum momento da vida, foram tocados por sua forma generosa de existir.

A solenidade, proposta pelo vereador Marcos Henriques, transbordava mais que um ato protocolar — foi uma manifestação pública de reconhecimento e gratidão. Em seu discurso, o parlamentar adotou um tom que mesclava rigor político e admiração sincera: lembrou ao público que Bebé é desses seres raros que caminham no mundo com a sensibilidade de quem escuta a dor do outro e, ao mesmo tempo, carrega na mente a ousadia de dois mil mundos sonoros. Um “ser de luz própria que atravessa a lua”, como ele mesmo definiu. E ninguém ousou discordar.

Estavam ali músicos, escritores, pensadores, familiares, companheiros de bar, irmãos maçons, velhos estudantes e novos admiradores. Todos formando uma constelação afetiva em torno de um único homem. Sobre a mesa, além das autoridades, repousava o clima de emoção antiga — aquela que só aparece quando o coração reconhece sua própria história sendo celebrada.

O poeta e irmão, Merlano Maia, levantou-se e pintou com palavras a trajetória de Bebé desde os 14 anos, quando o menino de Itaporanga começou a moldar seu destino com a mesma firmeza com que se molda o couro de uma zabumba. Falou com carinho cadenciado, como quem tira versos do bolso, que o irmão sempre teve esse dom de transformar simplicidade em arte, e arte em caminhada.

Josival Pereira, jornalista, compadre e amigo, trouxe outro olhar, daqueles que só os que convivem conhecem: relembrou a capacidade infinita que Bebé tem de fazer amigos, de manter amizades, de ser coerente num tempo que vive de descartes. Disse que ele é insuperável na arte de ser solidário — e, quando disse isso, houve um silêncio bonito, desses que confirmam verdades.

Depois foi a vez de Mô Lima, hoje vereador, ontem aprendiz. Sua fala veio com um tom íntimo, como quem volta ao tempo com a mesma pressa de quem revisita um velho álbum. Contou que foi Bebé quem o aproximou de seu pai, o lendário Pinto do Acordeon, usando a música como ponte. E para selar a lembrança, Mô puxou a sanfona e tocou ‘My Way’. Não se ouviu apenas Frank Sinatra ecoando no fole — ouviu-se a gratidão vibrando na madeira do instrumento.

Ana Cláudia, esposa do homenageado, trouxe a poesia que só o amor sabe traduzir. Falou dele como fogos de artifício: explosivo, luminoso, imprevisível e sempre belo, mesmo quando assusta. Um companheiro fiel, um pai intenso, um avô sonhador — um homem que espalha vida ao redor.

Por fim, Bebé.

E ele não discursou: agradeceu.

Agradeceu como quem devolve ao mundo tudo que recebeu.

Falou dos pais — presentes no coração, mesmo ausentes no corpo. Agradeceu aos irmãos maçons, aos amigos de bar, aos parceiros de música, aos filhos, aos alunos, aos compadres, aos companheiros de estrada e luta. Agradeceu a Itaporanga por lhe ter ensinado a ser feliz e a João Pessoa por ter lhe dado “régua e compasso”, por ter sido chão, teto, escola, palco e abrigo.

E quando terminou, a sala parecia maior. Talvez porque a gratidão dilate espaços. Talvez porque um artista de verdade, quando fala de sua vida, acaba falando da vida de todos nós.

Francisco Barbosa Sobrinho, Bebé de Natércio, guarda no corpo o acúmulo de várias vidas: músico, compositor, arranjador, maestro, professor, cordelista, pesquisador, gestor, mestre de si mesmo e dos outros. Passou por palcos e instituições, por orquestras e bandas, por salas de aula e terreiros de cultura. Produziu discos, compôs canções, orientou jovens, espalhou poesia.

E agora, naquele dia, foi oficialmente acolhido como cidadão pessoense — mas a verdade é que João Pessoa já o pertencia há muito tempo. Pertencia desde a primeira música que ele compôs, desde a primeira cantoria no mercado, desde o primeiro aluno transformado pelo seu saber.

A cerimônia acabou, mas ninguém quis ir embora depressa. Havia naquele ar um perfume de memória recém-feita, algo como sentir o coração mais bonito por alguns instantes.

E a cidade, coitada, talvez nem soubesse explicar, mas sabia: ali não ganhava apenas um filho — ganhava um símbolo, um pedaço vivo de sua própria alma cultural.

Alguns artistas são assim: chegam devagar e ficam para sempre.

E, mesmo quando se vão, nunca partem de verdade.

Bebé de Natércio é um desses.

Não é apenas um artista.

É a própria arte caminhando pela rua.

João Pessoa, dezembro de 2025.

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