PEQUENAS RESISTÊNCIAS – Novo Artigo de Demétrius Faustino

PEQUENAS RESISTÊNCIAS

 

Demétrius Faustino

 

Não se engane: resistir não é só coisa de herói de filme ou de manifestante na rua. Às vezes, resistir é dizer “não” ao celular piscando na mesa de cabeceira. A gente olha para aquela tela brilhando e sente como se fosse uma sirene de ambulância chamando: “vem aqui, pode ser importante”. Mas, na maioria das vezes, não é. É só um cupom de desconto vencido, alguém que mandou “kkk” num grupo aleatório ou uma propaganda insistindo que você precisa de uma fritadeira elétrica.

Hoje em dia, resistir não é fazer grandes coisas, mas sim cuidar de detalhes.
Pode ser virar o celular de tela para baixo, ativar o “Não Perturbe”, combinar com você mesmo de ficar meia hora sem olhar notificações, tirar alguns aplicativos da primeira página ou até deixar o telefone em outro cômodo na hora de dormir. Isso não é um ato de heroísmo, é apenas cuidar da mente. Porque, quando o celular pede atenção imediata, ele acaba roubando o tempo que você precisa para descansar, pensar e viver depois.

E, no silêncio que sobra, acontece o que a pressa não deixa: uma ideia termina de nascer, um parágrafo se ajeita, o sono finalmente chega. Resistir, no fim das contas, é escolher a vida que está acontecendo fora da tela — e aceitar que 99% do urgente pode esperar até amanhã.

Desligar o celular uma hora antes de dormir é como expulsar um penetra da festa. No início, você estranha a ausência dele. Até pensa: “será que o mundo vai acabar e eu não vou ficar sabendo?”. Só que não. O mundo não acaba. O que acaba é a sua insônia. E, de repente, o travesseiro volta a ser lugar de descanso, e não de maratona de vídeos curtos que nunca terminam.

Outra forma de resistência é caminhar sem fones de ouvido. A primeira sensação é estranha. Parece que falta alguma coisa, como se estivesse andando sem sapatos. Mas depois de alguns minutos, o ambiente se revela. Você descobre que a cidade tem barulhos engraçados: o cachorro que late como se fosse trompete, o vendedor de pamonha que troca o “quente” por “frio” sem perceber, a senhora que fala sozinha enquanto carrega a sacola. A vida, sem trilha sonora escolhida, improvisa uma playlist própria. E, acredite, é mais original que qualquer algoritmo.

E tem também o clássico: tomar café olhando a rua em vez da tela. Esse é o reality show mais honesto que existe. Você vê o senhor de bigode que sempre atravessa no sinal vermelho, a mãe que negocia com o filho como se fosse um diplomata (“se você comer o pão, ganha o suco”), o rapaz que ensaia frases para conquistar alguém, mas só consegue ajeitar o cabelo pela vigésima vez. Cada gole de café vem acompanhado de uma cena nova, e sem cortes publicitários.

As pequenas resistências não param por aí. Tem quem decida desligar as notificações do grupo da família (esse é nível avançado). Ou quem insiste em escrever à mão a lista de compras, em vez de usar aplicativo. Tem ainda o herói que recusa ver o final da série de madrugada, preferindo o suspense de esperar até o outro dia. Cada um cria o seu jeito de remar contra a correnteza da pressa e das telas.

No fundo, não é sobre ser contra a tecnologia ou viver como se estivéssemos no século passado. É só sobre lembrar que a gente ainda tem olhos para ver além do vidro, ouvidos para escutar além dos fones e mãos para segurar uma xícara de café em vez de um celular.

Essas resistências podem parecer pequenas demais para mudar o mundo. Mas, se a gente pensar bem, talvez seja exatamente nelas que o mundo se transforma: quando alguém decide desligar, ouvir, olhar — e, de repente, respirar.

João Pessoa, janeiro de 2026.