O MENINO DO TÊNIS GASTO E O SILÊNCIO QUE FICOU
Demétrius Faustino
Há artistas que parecem nascer com a alma afinada em tom maior. Lô Borges era assim — um menino de voz tímida, olhar sereno e coração atravessado por melodias. Cresceu nas esquinas de Belo Horizonte, onde a vida passava devagar e a música se misturava ao cheiro de café, à poeira das ruas e à conversa mansa dos amigos. Ali, entre guitarras emprestadas e sonhos de liberdade, começou a moldar o som que mudaria o rumo da canção brasileira.
Nos anos 1970, Lô era o garoto do bairro de Santa Tereza que preferia os ensaios aos holofotes. No apartamento da Rua Divinópolis, dividia tardes com Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta e Tavinho Moura. Foi dali que nasceu o Clube da Esquina, movimento que uniu o lirismo mineiro à ousadia dos Beatles, o regional ao universal. E no meio de tudo isso, Lô era o fio invisível que costurava as harmonias — o menino calado que dizia tudo por meio de acordes.
Em 1972, aos 20 anos, lançou seu disco solo, o lendário “Disco do Tênis”. Na capa, um tênis surrado sobre o cimento — símbolo da simplicidade e da estrada. Aquela imagem virou ícone, quase um retrato da própria vida do artista: andarilho discreto, sempre em movimento, sempre à margem das modas. O disco não vendeu muito na época, mas atravessou gerações, tornando-se um dos álbuns mais cultuados da música brasileira.
As canções de Lô tinham cheiro de infância e som de lembrança. “O Trem Azul”, “Paisagem da Janela”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” — todas guardavam um pedaço do céu mineiro e um tanto de eternidade. Sua voz mansa parecia não cantar, mas conversar. Quem o ouvia sentia que o mundo podia ser mais leve, mais possível, mais bonito.
Mas o tempo, esse compositor impiedoso, também escreve seus silêncios. Em outubro de 2025, Lô Borges foi internado em Belo Horizonte, após uma intoxicação medicamentosa. Foram dias de apreensão. Os fãs esperavam notícias, os amigos mandavam boas energias, e a música — essa companheira antiga — parecia vigiar o quarto de hospital, como se sussurrasse: “calma, menino, ainda há canções pra cantar”.
Não houve. No dia 2 de novembro de 2025, às 20h50, Lô partiu. Falência múltipla de órgãos, disseram os médicos. Tinha 73 anos. A notícia se espalhou como vento frio. Belo Horizonte amanheceu em silêncio — e, por um instante, parecia que o trem azul tinha parado na estação.
Mas quem amou Lô Borges sabe: há artistas que não morrem, apenas mudam de tom. Sua música ficou — viva, delicada, pulsante. Continua a ecoar nas janelas abertas, nas rodas de violão, nas memórias de quem cresceu ouvindo sua doçura desafiar o barulho do mundo.
Lô foi o homem que nunca precisou gritar para ser ouvido. Viveu de maneira simples, com o coração voltado para o essencial. Era o menino do tênis gasto que andava devagar, mas chegou longe demais. E agora, onde quer que esteja, talvez siga compondo — talvez tenha achado um novo acorde, uma nova esquina no céu.
Porque, no fundo, Lô Borges não se foi. Apenas deixou o palco, enquanto o eco de sua música ainda atravessa o ar — suave, eterno, azul.
João Pessoa, novembro de 2025.
