O CARREIRISMO EM PRIMEIRO LUGAR
Demétrius Faustino
São Paulo é uma cidade que respira concreto, metrôs e buzinas, mas que parece, de tempos em tempos, esquecer que sua vida não precisa girar em torno de um espetáculo político. E é nesse palco urbano que Tarcísio de Freitas aparece, com seu passo cadenciado, sorriso ensaiado e olhares para a câmera, sempre pronto para transformar cada obra, cada vistoria, cada assinatura de decreto em um ato de autopromoção.
O que há de mais indigesto nesse governante não é sua ambição — ambição é praticamente um adereço necessário na política. O que realmente incomoda é a maneira quase artística com que ele a transforma em espetáculo. Cada ato público, por mais banal que seja, é coreografado: o aperto de mão certo, o sorriso no ângulo correto, a fala planejada para repercutir nas redes sociais antes mesmo de ser dita. E o cidadão paulista, que deveria ser protagonista, acaba coadjuvante involuntário, figurante em uma narrativa cuidadosamente construída para engrandecer o governador.
O carreirismo de Tarcísio é visível em cada gesto: uma obra é inaugurada antes de estar concluída, uma vistoria parece mais cena de novela do que rotina administrativa, e discursos intermináveis ecoam promessas que soam mais como slogans eleitorais do que compromissos concretos. Ele governa com a precisão de quem mede não apenas resultados, mas também cliques, likes e menções na imprensa. Cada ato é uma jogada no tabuleiro da própria biografia, e cada aplauso é transformado em capital político pessoal.
Enquanto isso, São Paulo segue seu ritmo frenético: filas de hospitais, congestionamentos, precariedade no transporte público, burocracia que engole o cidadão. Mas essas realidades, que deveriam guiar a ação de um governante, muitas vezes se tornam figurantes na narrativa do governador. O espetáculo da autopromoção transforma problemas reais em cenário de fundo, em elementos que reforçam a imagem do protagonista, sem afetar de fato sua trajetória de ascensão política.
E é impossível não notar a frieza estratégica por trás desse estilo: cada visita a cidade, cada entrevista, cada foto, tudo é calculado. A cidade é palco, a população é plateia e Tarcísio é protagonista absoluto. Nesse jogo, a governança muitas vezes se dobra à lógica do marketing pessoal: eficiência não é medida pelo impacto nas vidas, mas pelo reflexo positivo na imagem do governador. É um governo em constante campanha, onde cada detalhe é avaliado sob a lente da carreira política, e não da necessidade do povo.
O mais irônico é que, para alguns, essa estratégia é admirável. Há quem veja nesse ritmo incansável de autopromoção um exemplo de determinação, de modernidade, de competência. Mas a linha entre competência e vaidade é tênue, e o resultado é que São Paulo, uma das maiores cidades do planeta, muitas vezes serve apenas de palco para a exibição de um plano de carreira pessoal. E é nesse contraste que se revela a essência indigesta do governante: a cidade existe, mas parece existir para servir ao brilho do político.
No final, fica claro: o projeto maior não é São Paulo, mas ele próprio. Cada ato público, cada assinatura de decreto, cada inauguração serve a um único objetivo — fortalecer a biografia, acumular visibilidade, projetar-se no futuro. Enquanto isso, a população assiste, entre resignada e crítica, à encenação do poder. O carreirismo, nessa dimensão, não é apenas ambição: é arte, espetáculo, teatro político. É visível, audacioso e, para muitos, irritantemente indigesto.
São Paulo é a cidade das possibilidades, mas sob essa gestão, muitas dessas possibilidades parecem secundárias diante do show político que se desenrola. E enquanto os problemas reais esperam, o governador caminha entre obras e cliques, sempre calculando seu próximo passo, sempre garantindo que, no palco da política, ele permaneça em cena.
Porque, no final das contas, o que se constrói não são apenas viadutos e estradas: constrói-se a narrativa perfeita de um político em ascensão. Um político que governa para ser visto, que administra para aparecer, e cujo maior projeto é, acima de tudo, ele mesmo. Indigesto? Sem dúvida. Mas impossível de ignorar.
João Pessoa, outubro de 2025.
