O BRASILEIRÃO NÃO TIRA FÉRIAS
Demétrius Faustino
A bola volta a rolar cedo, cedo demais — ainda com gosto de rabanada na boca e promessa de ano novo mal cumprida. O corpo pede descanso, a cabeça ainda faz contas do réveillon, mas o futebol não espera ninguém. Janeiro mal abriu as portas e o Campeonato Brasileiro já entra sem pedir licença, como visita íntima que conhece a casa, abre a geladeira e senta no sofá antes mesmo do café.
O torcedor, ainda entre o chinelo e a camisa do time, se vê obrigado a escolher: aproveitar o começo do ano ou sofrer desde já. Sofre. Porque o Brasileirão não respeita calendário emocional. Ele chega impondo rotina, criando ansiedade e transformando o domingo em obrigação sagrada, mesmo quando o ano ainda engatinha.
Não é pressa, é necessidade. O calendário aperta, a Copa do Mundo espreita no horizonte como um eclipse inevitável, e o futebol brasileiro aprende, à força, a correr antes de andar. Começar em janeiro virou estratégia de sobrevivência. Se não for assim, não cabe. Simplesmente não cabe.
O torcedor ainda está se refazendo das festas, mas já discute esquema tático. O técnico fala em “grupo em formação”, o elenco ainda cheira a pré-temporada, e a torcida — sempre ela — cobra como se fosse outubro. Porque o Brasileirão não espera ninguém. Nem descanso, nem contexto, nem Mundial.
A Copa do Mundo paira como sombra e desculpa. Quando ela chega, tudo para. Antes e depois, o futebol vira maratona. Jogos acumulados, pernas cansadas, emoções comprimidas.
Para dar conta do silêncio imposto pela Copa, o Campeonato Brasileiro começa a gritar mais cedo. Antecipar o início vira forma de compensar a ausência, de diluir a pausa, de fazer caber no ano aquilo que nunca coube direito. É um grito apressado, às vezes rouco, mas necessário — porque quando a Copa cala tudo, o Brasileirão precisa ter falado antes.
E assim, janeiro ganha cara de rodada inaugural. O sol castiga, o gramado sofre, o time ainda não se encontrou — mas vale três pontos do mesmo jeito. Porque no Brasileirão não existe jogo provisório. Tudo conta, tudo pesa, tudo cobra juros lá na frente.
O campeonato volta antes da hora ideal, mas na hora possível. Volta porque o país precisa desse ritual semanal de esperança e raiva. Volta porque, mesmo espremido entre Copas, datas FIFA e decisões mal resolvidas, o futebol insiste em sobreviver.
E quando a bola rola em janeiro, o torcedor entende: o ano começou de verdade. Não no calendário. No apito inicial.
João Pessoa, janeiro de 2026.
