GANHAM TUDO, MENOS O QUE VALE – Artigo de Demétrius Faustino

GANHAM TUDO, MENOS O QUE VALE

 

Demétrius Faustino

 

A Seleção Brasileira Feminina é um caso à parte no futebol mundial. Ganha quase tudo o que disputa, menos o que realmente importa. Amistosos? Vence. Torneios preparatórios? Conquista. Eliminatórias sul-americanas? Passeia. Mas quando chega a hora da verdade — Copa do Mundo ou Olimpíadas — o encanto se desfaz, como se a camisa amarela perdesse o brilho no exato momento em que o mundo acende as luzes.

É um enredo que se repete há décadas, mesmo com gerações brilhantes. Marta, Formiga, Cristiane — nomes que marcaram época, encantaram plateias e colocaram o Brasil no mapa do futebol feminino — nunca conseguiram erguer o troféu mais cobiçado. Em campo, o talento é inegável; fora dele, as adversidades são muitas: falta de estrutura, investimento desigual e um calendário que, por vezes, parece castigar mais do que preparar.

Ainda assim, o Brasil segue sendo uma potência. Nenhuma seleção sul-americana se aproxima de sua regularidade e da qualidade de suas jogadoras. Mas o sonho da glória máxima, aquela que eterniza gerações e inspira multidões, continua adiado. É como se o futebol feminino brasileiro vivesse eternamente na fronteira entre a excelência e a frustração — brilhando nos ensaios, tropeçando no espetáculo final.

A cada nova competição, renasce a esperança de que o roteiro mude, de que o talento, enfim, se converta em título. Porque, se há algo que o Brasil sabe fazer no futebol, é desafiar o impossível — e o futebol feminino, com toda sua garra e beleza, ainda tem uma história de ouro a escrever.

É irônico, quase cruel.

Um país que respira futebol, que vive de narrativas épicas e heróis de chuteira, ainda não viu suas mulheres levantarem o troféu máximo. E não é por falta de talento. Marta, Cristiane, Formiga, Debinha, Andressa Alves, Bia Zaneratto — nomes que já deveriam estar esculpidos no mesmo pedestal onde repousam Pelé, Romário e Marta, sim, duas vezes, porque o que ela fez merece espaço duplo.

Desde que o futebol feminino deixou de ser proibido no Brasil — sim, proibido por lei, de 1941 a 1979 —, a seleção vem carregando nas costas o peso da reconstrução. Jogou sem estrutura, sem patrocínio, sem calendário fixo e com olhares de desdém. Jogou por amor, quando o amor ainda não pagava as passagens. Jogou para provar que podia existir.

Mesmo assim, colecionou conquistas.

Foi campeã de oito Copas Américas, de torneios internacionais como a China Cup, a SheBelieves Cup e o Torneio Internacional de Brasília. Chegou à final da Copa do Mundo de 2007, vencendo os Estados Unidos com um baile histórico por 4 a 0 na semifinal, e só parou diante da Alemanha. Levou duas pratas olímpicas — Atenas 2004 e Pequim 2008 — jogando um futebol vistoso, ofensivo, ousado.

Mas falta o troféu.

Aquele que brilha na prateleira e silencia as dúvidas. Aquele que transforma sonho em estatística e lembrança em eternidade. Falta a Copa do Mundo. Falta a foto com a taça nas mãos de Marta, sorrindo, coroando a geração que levou o Brasil ao topo sem jamais pisar nele.

E é aqui que mora a ironia.

O Brasil ganha tudo o que não vale tanto e perde tudo o que vale demais. Vence seleções campeãs em amistosos televisionados para meia dúzia de espectadores, mas tropeça em Copas disputadas sob o olhar do planeta. Há algo de poético — e de trágico — nisso. Como se a seleção feminina fosse condenada a ser eterna promessa, eterna quase-lenda.

Enquanto isso, o futebol feminino europeu cresce a passos largos. Inglaterra, Espanha, França e Suécia investem em ligas fortes, centros de treinamento, base, calendário e público. No Brasil, o debate ainda gira em torno de “visibilidade” e “apoio institucional”, termos que servem mais para esconder o problema do que para resolvê-lo.

Mesmo assim, as nossas jogadoras seguem.

Driblando o descaso, cruzando contra o vento, marcando gols em gramados que, muitas vezes, ainda são simbólicos. Marta, aos 39, segue sendo exemplo. Formiga, aposentada, ainda é referência. E uma nova geração — Ary Borges, Geyse, Adriana — tenta manter acesa a chama que o sistema insiste em soprar.

Talvez o verdadeiro título já tenha sido conquistado sem que o país tenha percebido: o de resistir.

Resistir à desigualdade, ao preconceito, à memória curta. Resistir à ideia de que futebol é “coisa de homem”. Resistir ao esquecimento, que é o adversário mais perigoso de todos.

O dia em que o Brasil erguer a Copa do Mundo Feminina — e ele vai chegar —, não será apenas uma conquista esportiva. Será a reparação de uma história que começou nas sombras e terminou sob holofotes. Será a vitória de quem jogou contra tudo, inclusive contra o próprio país.

Até lá, seguimos dizendo com um sorriso amargo: o Brasil feminino ganha tudo — menos o que de fato importa.

João Pessoa, outubro de 2025.