ESCOLA DE SAMBA E O MILAGRE COTIDIANO DA INCLUSÃO
Demétrius Faustino
Há quem pense que a escola de samba nasce apenas no compasso do surdo, vive três noites na avenida e morre na quarta-feira de cinzas. Engano comum. A escola de samba acorda cedo, mora na comunidade e trabalha o ano inteiro. Ela não desfila: ela resiste.
Basta atravessar o portão de um barracão ou se sentar num ensaio de quadra para perceber que ali acontece algo raro em tempos de tantas exclusões. A escola de samba acolhe. Quem chega encontra um lugar para existir, para ser visto, para ser útil. O jovem sem perspectiva descobre um talento, o idoso reencontra a razão de ensinar, a criança aprende cedo que identidade também se constrói com tamborim, cola quente e respeito.
Muito antes da fantasia brilhar sob os refletores, há mãos calejadas, risos partilhados, conflitos resolvidos na conversa e sonhos costurados ponto a ponto. O desfile é só o instante final de uma história longa, feita de encontros semanais, de afeto cultivado e de um aprendizado silencioso: ninguém faz samba sozinho.
Num país em que tantos são empurrados para a margem pela violência, pelo desemprego ou pela indiferença, a escola de samba cria uma espécie de igualdade provisória — mas poderosa. Ali, o CPF não pesa, o saldo bancário não fala mais alto. O que importa é o compromisso com o coletivo, a capacidade de transformar dificuldade em beleza. E que beleza. Efêmera, sim, mas intensa o suficiente para marcar uma vida inteira.
Em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, essas agremiações se organizam como verdadeiras empresas da cultura. Geram renda, exigem disciplina, ensinam a trabalhar em grupo. Formam cidadãos enquanto formam desfiles. E fazem isso sem perder a alma, mantendo viva a tradição que veio do povo e para o povo retorna.
Quando a televisão liga suas câmeras, a escola de samba aproveita para ensinar. Fala de história, de ecologia, de injustiças e conquistas sociais. Entre uma alegoria e outra, o público aprende, reflete, se reconhece. A avenida vira sala de aula, e o samba, um livro aberto.
Mesmo cercadas por crises, falta de recursos e desafios do mundo moderno, as escolas seguem inventando caminhos. Recuam quando é preciso, avançam quando dá, mas nunca desistem. Reinventam-se sem trair a própria essência, provando que tradição não é sinônimo de imobilidade.
No fim das contas, talvez seja isso que mais incomode e encante: a escola de samba insiste em sonhar coletivamente. É uma fábrica de sonhos, sim, mas também de pertencimento, de dignidade e de esperança. E num país que tantas vezes falha em incluir, ela segue mostrando, com samba no pé e coragem no peito, que inclusão social também pode desfilar — e ganhar aplausos.
João Pessoa, fevereiro de 2026.
