ANISTIA E OS ECOS DO PASSADO- Confira o artigo de Demétrius Faustino

ANISTIA E OS ECOS DO PASSADO

Demétrius Faustino

Nos corredores sombrios da política brasileira, um eco de um tempo não tão distante começa a ser ouvido novamente. A ideia de anistiar bolsonaristas, proposta por setores do STF, soa como uma decisão estratégica, mas também carrega consigo a sombra de um debate doloroso sobre o que realmente significa “perdoar” e, mais ainda, sobre o que se está realmente perdoando.
Quem, em sã consciência, poderia esquecer os episódios de violência, intolerância e os ataques à democracia que marcaram o governo Jair Bolsonaro? O legado, como uma mancha de tinta indelével, não se apaga facilmente. No entanto, a proposta de anistia parece surgir em um momento de tensão, onde as cicatrizes ainda estão frescas e os ferimentos políticos continuam abertos.
A anistia é uma ideia que, em um primeiro olhar, carrega consigo a promessa de reconciliação. Como em um jogo de xadrez, o STF estaria movendo suas peças para, talvez, restabelecer a harmonia política. Mas, ao considerar essa proposta, surge uma pergunta inevitável: é possível perdoar aqueles que negaram, por tantas vezes, o próprio Estado de Direito? Aqueles que, com discursos inflamados, incitaram a violência, a mentira e a divisão social?
E mais: o que dizer daqueles que, ao mesmo tempo em que clamam por “liberdade”, defendem práticas autoritárias? A história, que já foi marcada por outras anistias, nos ensinou que o preço da impunidade pode ser alto demais. O perdão sem reflexão, sem um processo de reconstrução de valores, pode levar a sociedade a uma repetição dos mesmos erros.
Mas há, sem dúvida, um outro lado da moeda. O Brasil, com todas as suas falhas e feridas, sempre teve uma habilidade notável em seguir em frente, mesmo quando a tentação de reviver o passado parece forte. A anistia, vista sob outra ótica, poderia ser uma oportunidade de olhar para o futuro, deixar para trás as tensões do momento e tentar construir uma nação mais unida, sem que as divisões alimentem o ódio. Mas para que isso aconteça, é preciso mais do que um perdão formal; é necessário um compromisso genuíno com a democracia, com a verdade e, sobretudo, com a reconciliação real.
Assim, a proposta de anistiar bolsonaristas é um campo minado, onde qualquer passo em falso pode gerar consequências profundas. O STF, em sua tentativa de equilibrar o passado e o futuro, precisa saber onde colocar os pés. Afinal, ao buscar a paz, não podemos abrir mão da justiça.
João Pessoa, março de 2025.