A NORMALIZAÇÃO DO ABSURDO
Demétrius Faustino
No começo, a gente estranha. Franze a testa, comenta com quem está por perto, solta um “não é possível” meio sem força. Depois, passa. O absurdo se repete, se instala, vira paisagem. E o que antes causava indignação passa a ser só mais uma cena do cotidiano, dessas que já não chocam mais.
E assim, sem alarde, o que antes causava revolta passa a ser tratado como detalhe. Já não interrompe o dia, não altera planos, não provoca reação coletiva. É só mais uma cena do cotidiano, dessas que a gente registra de canto de olho e segue adiante, porque parar para se indignar o tempo todo cansa. E, quando cansa, a normalização vence.
O relógio marca oito da manhã e a fila já dobra o quarteirão, silenciosa e disciplinada, como se tivesse sido ensaiada. Ninguém reclama. Não por paciência, mas por costume. Cada um já sabe seu lugar na espera infinita, segura um documento amassado, confere o celular, ajeita o corpo para mais uma hora de pé. A esperança ali é modesta: ser atendido antes do meio-dia.
De repente, alguém avisa que o sistema caiu. A frase é dita com naturalidade, quase com carinho, como se fosse um fenômeno da natureza. O atendimento atrasa, as portas permanecem abertas apenas para a frustração entrar e sair. Minutos depois, surge o aviso improvisado: um papel mal recortado, colado com fita na parede, escrito às pressas — “retornaremos em breve”.
Ninguém pergunta quando. Ninguém discute. A palavra “breve” já não carrega promessa alguma; virou um intervalo elástico, sem forma, sem prazo, sem responsabilidade. Pode ser meia hora, pode ser amanhã. “Em breve” deixou de ser expectativa e passou a ser protocolo, uma unidade oficial de tempo criada para não comprometer ninguém.
E a fila continua ali, imóvel e conformada, aprendendo mais uma vez que esperar não é exceção — é método.
No trânsito, o sinal vermelho é sugestão. A buzina virou linguagem, e a faixa de pedestre, enfeite urbano. O susto deu lugar à resignação. A infração é tão comum que o correto parece exagero. Quem respeita as regras passa por ingênuo; quem burla, por esperto.
Na televisão, a notícia grave entra entre o intervalo e a previsão do tempo. Escândalos se empilham, números sobem, direitos escorrem. Tudo narrado com a mesma entonação neutra, como se o extraordinário tivesse sido promovido a rotina. O controle remoto ajuda: troca-se de canal, troca-se de assunto, troca-se de indignação.
No balcão, o preço muda sem aviso. No contrato, a cláusula some no miúdo das letras. No serviço público, a responsabilidade nunca é de ninguém. “Não é aqui”, “volta amanhã”, “falta um documento”. O absurdo não grita; ele pede senha e chama pelo número.
O mais curioso é que a gente se adapta. Aprende a sobreviver no improviso, a rir do problema, a contar vantagem da própria resistência. Faz piada do que deveria causar revolta. É o mecanismo de defesa coletivo: se doer demais, a gente normaliza.
E assim, pouco a pouco, o absurdo deixa de ser exceção e vira regra. Não porque seja aceitável, mas porque se tornou frequente demais para espantar. O perigo não está no caos declarado, mas nesse estado morno de conformismo, onde tudo é errado, mas nada é urgente.
Talvez o mais assustador não seja o absurdo em si, mas a nossa impressionante capacidade de conviver com ele sem grandes sobressaltos. A gente se adapta, ajusta expectativas, aprende a contornar o problema em vez de enfrentá-lo. O que antes feria agora apenas incomoda, e o que incomodava vira parte do roteiro diário.
Porque quando nada mais choca, qualquer coisa passa. Passa a decisão sem explicação, passa o serviço mal feito, passa o desrespeito travestido de normalidade. Tudo escorre sem provocar reação, como se fosse inevitável, como se não houvesse alternativa além da aceitação silenciosa.
E quando tudo passa, o inaceitável deixa de ser afronta e vira detalhe. Um detalhe incômodo, é verdade, mas incorporado à rotina, tolerado em nome da sobrevivência emocional. É nesse ponto que o absurdo vence: não quando aparece, mas quando deixa de ser questionado e passa a caber, discretamente, dentro do dia.
João Pessoa, dezembro de 2025.
