“A ASTÚCIA DE CHICO DIANTE DO PSEUDOJURISTA” – Por: Demétrius Faustino

A ASTÚCIA DE CHICO DIANTE DO PSEUDOJURISTA

 

Demétrius Faustino

 

Dizem que, no Brasil, golpe é que nem mato: nasce em qualquer fresta, brota até no cimento quente. Mas o sujeito dessa história exagerou na ousadia — quis enganar justamente Chico Buarque, homem de palavra fina, ouvido afiado e faro de malandro veterano. Chico, que já atravessou décadas de Brasil com olhos atentos e sensibilidade de cronista, conhece de longe o cheiro da conversa torta. Não é por acaso que suas canções vivem cheias de personagens espertos, contraventores elegantes, malandros arrependidos ou reincidentes. Ele sabe que toda história tem um ritmo, e que golpista ruim quase sempre entra fora do compasso.

Pois o tal farsante, acreditando que poderia improvisar diante de um mestre da palavra, chegou achando que bastaria vestir um terno surrado e decorar meia dúzia de expressões jurídicas para fazer bonito. Mal sabia ele que, para Chico, o Brasil sempre foi um palco onde as máscaras caem cedo — e onde farsante que desafina é expulso antes do segundo ato.

O meliante apareceu alinhado: terno emprestado, pasta de plástico, sorriso treinado no espelho. Apresentou-se como advogado, desses capazes de recitar artigos do Código Civil com a mesma naturalidade com que outros pedem um cafezinho. Só que, no fundo, o único código que ele dominava era o PIN do próprio celular — e olhe lá.

Chegou dizendo que vinha “resolver um assunto urgente”, sempre essa palavra mágica que os picaretas adoram. Urgência. Como se Chico, que já viu ditadura, exílio, censura e boletos, fosse tremer diante de um corajoso de ocasião. O falso doutor tentou embrulhar tudo num juridiquês raso: “preclusão”, “juridicidade”, “consectário lógico”, umas palavras jogadas ao vento, esperando que uma delas produzisse espanto. Nada. Chico só ergueu a sobrancelha, daquele jeito de quem já escreveu personagens muito mais perigosos.

O meliante, percebendo que o show não estava funcionando, tentou o golpe final: insinuou que precisava de uma procuração, uns dados pessoais, talvez até um adiantamento — porque, claro, golpe sem dinheiro não enche barriga. Aí foi o fim da linha. O cantor, que vive do verbo, desmanchou o farsante com a força suave de um samba-canção. Perguntou onde o sujeito tinha tirado a carteira da OAB. O indivíduo gaguejou. Perguntou qual era o número do artigo que ele mesmo tinha citado segundos antes. O sujeito tossiu. Perguntou, por fim, qual era o nome do desembargador que ele dizia conhecer. O sujeito suou.

E então, pronto: o teatro ruiu. Não havia plateia, não havia palco, não havia peça. Só um malandro sem talento pedindo desculpas, enquanto saía rápido demais para quem dizia estar em missão jurídica.

Chico ficou ali, na varanda, rindo baixinho. Pensou que o Brasil anda tão cheio de trama que, se ele resolvesse musicar essa história, o público acharia exagero. Mas não é. É só mais um capítulo dessa grande ópera bufa em que sempre aparece alguém tentando ser o que não é — até que encontra quem realmente é.

Porque, no fim das contas, golpista pode até improvisar. Mas desafinar diante de Chico Buarque é pedir para ser retirado do palco à moda antiga: com elegância, ironia e nenhum esforço. E é exatamente isso que acontece quando alguém tenta se equilibrar no fio do embuste diante de quem domina, como poucos, a arte de perceber as notas falsas do mundo. Chico não precisa elevar a voz, nem bater na mesa: basta um comentário sutil, um olhar atravessado, um sorriso que mistura paciência e deboche para desmontar o castelo de cartas do farsante.

No palco da vida real, o meliante não teve nem tempo de ensaiar bis. Sua performance caiu por terra antes de terminar o primeiro ato, e Chico, com sua serenidade de quem já viu de tudo, apenas acompanhou a saída do improvisado “doutor” como quem observa um personagem mal escrito deixar a cena. Porque, no Brasil, o golpe até insiste em repetir o mesmo roteiro — mas Chico, esse, continua imune ao amadorismo travestido de esperteza.

João Pessoa, novembro de 2026.