Demetrius Faustino
Se alguém decidir escolher o próximo presidente da República apenas pelas pesquisas eleitorais, é melhor preparar o coração — e talvez uma calculadora.
Não faltam números. Falta apenas combinar os números entre si.
Dependendo do instituto, a eleição presidencial muda de temperatura, de direção e, em alguns casos, até de protagonista. Cada pesquisa parece trazer não apenas uma fotografia do eleitorado, mas uma interpretação particular da realidade brasileira.
Há, porém, uma convergência: Lula aparece na liderança.
O problema começa logo depois.
É aí que a eleição fica realmente interessante.
Porque, em uma disputa presidencial marcada pela possibilidade de segundo turno, não basta saber quem está na frente. É preciso descobrir quem terá força para chegar ao segundo turno — e, principalmente, quem terá condições de enfrentar Lula quando a eleição deixar de ser uma disputa de muitos e virar uma guerra de dois.
E aí começa o verdadeiro campeonato das pesquisas.
Um instituto aproxima determinado candidato da segunda colocação. Outro coloca um adversário em posição mais confortável. Um terceiro desenha uma disputa completamente diferente.
Não é apenas uma diferença na planilha.
É uma diferença na narrativa política.
Porque pesquisa eleitoral não apenas mede uma eleição. Em determinadas circunstâncias, ela também pode influenciá-la.
Candidato que aparece crescendo ganha aliados.
Candidato que aparece caindo perde aliados.
Quem está na frente recebe telefonemas.
Quem está atrás recebe conselhos.
E quem aparece muito atrás começa a receber, principalmente, silêncio.
É por isso que a pergunta incômoda não é apenas:
“Quem está na frente?”
A pergunta realmente importante é:
“Qual pesquisa está mais próxima da realidade?”
Talvez nenhuma consiga responder sozinha.
Pesquisa eleitoral é retrato de momento, não escritura pública do futuro. Tem amostra, metodologia, período de coleta, margem de erro e comportamento do eleitor.
E existe um detalhe que nenhum instituto consegue congelar:
a política continua acontecendo enquanto a pesquisa está sendo feita.
Enquanto o pesquisador pergunta, candidato negocia.
Enquanto a amostra é tabulada, partido muda de estratégia.
Enquanto os números são analisados, uma declaração pode destruir uma semana de campanha.
Enquanto o relatório chega à imprensa, um vídeo viraliza.
E enquanto os políticos comemoram ou reclamam dos números, milhões de eleitores continuam tentando decidir se querem continuidade, mudança ou simplesmente mandar todo mundo para casa.
É aí que a pesquisa deixa de ser apenas estatística e passa a ser também instrumento político.
Quando favorece, é “tendência”.
Quando prejudica, é “fotografia do momento”.
Quando confirma a expectativa, é “retrato da realidade”.
Quando contraria, alguém imediatamente descobre que o instituto é ruim, a metodologia é suspeita e os entrevistados provavelmente não representam o Brasil verdadeiro.
A velha política brasileira tem experiência nesse assunto.
Pesquisa boa é quase sempre aquela que coloca o candidato da gente na frente.
As outras precisam ser “analisadas com cautela”.
E existe uma regra ainda mais curiosa:
quanto pior o resultado, maior costuma ser a explicação.
O candidato que aparece na frente não precisa explicar muita coisa.
O que aparece atrás precisa explicar a pesquisa, a metodologia, a amostra, o momento político, o instituto, a margem de erro, a conjuntura econômica e, se for necessário, até a lua cheia.
Mas há algo que todos os candidatos sabem — embora poucos admitam:
ninguém chega ao segundo turno apenas porque uma pesquisa mandou.
É preciso transformar intenção de voto em voto.
E isso exige muito mais do que bons números.
Exige alianças, estrutura, presença nacional, tempo de televisão, dinheiro, militância, capacidade de comunicação e, sobretudo, capacidade de sobreviver à campanha.
Porque uma eleição presidencial é uma maratona disputada como se fosse uma briga de rua.
O candidato começa tentando conquistar votos.
Depois precisa defender os votos que conquistou.
Em seguida passa a atacar o adversário.
E, quando percebe, está gastando mais tempo explicando o que disse do que dizendo aquilo que pretendia.
O favorito também não pode dormir tranquilo.
Liderar pesquisa é confortável. Sustentar liderança é outra história.
Quanto mais tempo permanece na frente, mais exposição acumula.
E quanto maior a exposição, maior a possibilidade de desgaste.
O líder vira alvo.
Os adversários deixam de disputar entre si e passam a disputar para alcançá-lo.
É quando começa a verdadeira eleição.
Do outro lado, os candidatos que brigam pela segunda vaga sabem que existe uma espécie de prêmio invisível em jogo.
Não basta crescer.
É preciso crescer mais do que os outros.
Não basta ter voto.
É preciso ter voto suficiente para impedir que o adversário chegue ao segundo turno.
Por isso, a disputa pela segunda colocação pode ser, paradoxalmente, mais importante do que a própria liderança.
O primeiro colocado já tem uma vantagem.
Os demais disputam o direito de enfrentá-lo.
E isso muda completamente a lógica da campanha.
A partir de determinado momento, o eleitor deixa de perguntar apenas:
“Em quem você votaria?”
E começa a perguntar:
“Quem consegue derrotar quem?”
É nesse instante que surge o chamado voto útil.
E o voto útil é uma criatura curiosa.
Ele pode nascer de uma convicção.
Pode nascer do medo.
Pode nascer da rejeição.
Pode nascer da esperança.
E pode nascer simplesmente daquela velha frase brasileira:
“Vou votar nesse porque os outros não têm chance.”
É assim que uma eleição pode mudar de rumo em poucos dias.
Três pesquisas podem produzir três eleições diferentes.
Uma aponta estabilidade.
Outra indica crescimento.
A terceira anuncia uma virada.
E os três candidatos aparecem diante das câmeras dizendo exatamente a mesma coisa:
“Estamos dentro da margem de erro.”
É quase uma terapia eleitoral.
Se está na frente, comemora.
Se está empatado, comemora porque “está crescendo”.
Se está atrás, comemora porque “há muito tempo até a eleição”.
E se estiver muito atrás, resta a frase mais democrática de todas:
“Pesquisa não ganha eleição.”
Curiosamente, essa frase costuma aparecer com mais frequência justamente nas campanhas que perderam a pesquisa.
O eleitor, entretanto, não precisa escolher entre acreditar cegamente nos números ou simplesmente ignorá-los.
Pode fazer algo muito mais sensato: observar tendências, desconfiar das certezas e prestar atenção naquilo que nenhuma pesquisa consegue medir perfeitamente — a capacidade de cada candidato de resistir ao desgaste, ampliar alianças, reduzir rejeição e convencer o eleitor que ainda não decidiu.
Porque existe uma diferença enorme entre intenção de voto e voto decidido.
E existe uma diferença ainda maior entre aparecer bem numa pesquisa e conseguir colocar aquele número dentro da urna.
A eleição verdadeira começa quando o eleitor deixa de responder ao pesquisador e começa a responder a si mesmo.
Até lá, cada grupo político continuará enxergando o Brasil que mais lhe interessa.
Para uns, a eleição já está decidida.
Para outros, o segundo turno está garantido.
Para alguns, o adversário está derretendo.
Para outros, a onda está apenas começando.
E para os mais otimistas, basta “organizar a campanha” para tudo mudar.
No fundo, talvez exista apenas uma pesquisa realmente imparcial.
Ela não pergunta em quem você votaria.
Não tem instituto.
Não tem margem de erro.
Não precisa de registro no TSE.
Não publica gráfico.
Não divulga relatório.
E não pode ser contestada por assessoria de imprensa.
Ela acontece no dia da eleição, diante da urna eletrônica, quando o eleitor fica sozinho com a própria consciência — e com o botão de confirmação.
Nesse momento, desaparecem os comentaristas.
Desaparecem os marqueteiros.
Desaparecem os analistas.
Desaparecem os algoritmos.
E desaparecem também as certezas produzidas pelos institutos.
Há apenas um eleitor diante de uma urna.
E existe um pequeno detalhe que nenhuma pesquisa jamais conseguiu resolver:
naquela hora, ninguém pergunta ao eleitor em qual pesquisa ele acredita.
Pergunta apenas em quem ele vota.
E aí acaba a estatística.
Começa a democracia.
E, para desespero de quem já distribuiu o discurso da vitória, pode começar também uma eleição completamente diferente daquela que apareceu nas pesquisas.
**Porque pesquisa mede o eleitor de hoje.
A urna revela o eleitor que decidiu.**
João Pessoa, setembro de 2026.
