A MESMA RÉGUA – Artigo de Demétrius Faustino

A MESMA RÉGUA

 

Demétrius Faustino

 

Em época de eleição, acontece uma coisa curiosa: o eleitor deixa de prestar atenção apenas no candidato e começa a prestar atenção também em quem faz as perguntas.

Foi o que aconteceu comigo ao assistir às entrevistas da Globo com Lula e Flávio Bolsonaro.

Não faço aqui uma acusação de favorecimento, muito menos de perseguição. Trata-se de uma impressão de telespectador. E impressão, como sabemos, não é prova. Mas também não deixa de ser percepção.

E a televisão produz percepções.

Com Lula, tive a sensação de uma entrevista mais carregada de passado.

Vieram perguntas sobre episódios controversos, corrupção, investigações, aliados e acontecimentos que acompanham sua longa trajetória política.

Pergunta.

Resposta.

Nova pergunta.

Nova cobrança.

Quando parecia que determinado assunto havia terminado, ele reaparecia.

Lula, evidentemente, não é um novato diante das câmeras. Conhece jornalistas, conhece entrevistas e sabe que quem ocupa o centro do poder precisa responder a perguntas incômodas.

E que sejam feitas.

É esse o papel da imprensa.

Jornalista não existe para facilitar a vida de candidato.

Existe para perguntar aquilo que o eleitor gostaria de perguntar.

O problema surge quando aparece a comparação.

E comparação, em uma eleição, é inevitável.

Depois veio Flávio Bolsonaro.

Também recebeu perguntas difíceis. Também foi confrontado com temas delicados. Também precisou explicar posições, acontecimentos e questões relacionadas à sua trajetória política.

Mas, em determinados momentos, a sensação foi diferente.

A conversa parecia ter outra temperatura.

Talvez fosse apenas o estilo do entrevistador.

Talvez fosse o contexto.

Talvez fossem os próprios assuntos.

Talvez minha impressão esteja errada.

Mas foi essa a impressão.

E é justamente aí que começa uma discussão interessante sobre o jornalismo político.

A régua precisa ser a mesma?

Eu diria que sim.

Não porque os candidatos sejam iguais.

Não são.

Não porque os fatos sejam iguais.

Também não são.

Mas porque o princípio jornalístico deveria ser.

Se determinado assunto é relevante para um candidato, deve-se avaliar se também é relevante para o outro.

Se um precisa explicar seu passado, o outro também pode precisar.

Se as relações políticas de um candidato são objeto de questionamento, as do outro também podem ser.

Se patrimônio, dinheiro, aliados, decisões políticas e controvérsias fazem parte da entrevista de um, não deveria existir uma regra diferente para o outro.

Isso não significa transformar o jornalista em uma máquina sem opinião.

Jornalistas são seres humanos.

Têm convicções.

Têm formação.

Têm percepções.

Têm estilos.

O que se espera é que essas características pessoais não determinem a intensidade da cobrança conforme o candidato sentado diante deles.

Porque existe uma diferença fundamental entre jornalismo e militância.

O militante escolhe o lado.

O jornalista deveria escolher a pergunta.

E talvez seja exatamente por isso que o público esteja cada vez mais atento.

O telespectador já não observa somente o candidato.

Observa o entrevistador.

Observa a pergunta.

Observa a interrupção.

Observa o tom.

Observa o sorriso.

Observa a insistência.

Observa até o silêncio.

Uma pergunta pode parecer agressiva sem levantar a voz.

Outra pode parecer cordial e, ainda assim, ser devastadora.

Uma interrupção pode impedir uma explicação.

Uma insistência pode revelar uma contradição.

E uma pergunta que não é feita também pode chamar atenção.

É por isso que a imprensa também está sob o olhar do eleitor.

E isso, a meu ver, é saudável.

A imprensa deve fiscalizar o poder.

Mas precisa compreender que também será fiscalizada pela opinião pública.

Não há nisso nenhuma ameaça à liberdade de imprensa.

Ao contrário.

Uma imprensa livre é suficientemente forte para ser questionada.

O problema não está em perguntar.

Está em perguntar de maneira diferente conforme a conveniência.

E aqui talvez esteja o ponto mais delicado.

Não basta ser imparcial. É preciso parecer imparcial.

Uma emissora pode acreditar sinceramente que tratou dois candidatos de maneira equilibrada.

Mas, se uma parcela significativa do público percebe tratamento diferente, essa percepção também merece ser considerada.

Não como prova de parcialidade.

Mas como sinal de que a comunicação precisa ser cada vez mais cuidadosa.

Afinal, a credibilidade de um veículo de imprensa não depende apenas da qualidade das informações que publica.

Depende também da confiança que consegue transmitir.

E confiança é uma coisa curiosa.

Leva anos para construir.

Pode desaparecer em poucos minutos.

Talvez por isso seja tão importante que a mesma régua esteja sempre à vista.

Sem preferência.

Sem torcida.

Sem candidato protegido.

Sem candidato perseguido.

Apenas perguntas.

Perguntas duras, quando necessárias.

Perguntas incômodas, quando indispensáveis.

Perguntas que permitam ao eleitor conhecer melhor quem pretende governar o país.

Porque, no fim, não é o jornalista quem deve escolher o presidente.

É o eleitor.

E o eleitor brasileiro já aprendeu a desconfiar de todo mundo.

Desconfia do político.

Desconfia da pesquisa.

Desconfia da promessa.

Agora também observa o jornalista.

E talvez isso explique uma mudança importante na política brasileira.

Antes, o candidato era entrevistado e o jornalista era apenas o entrevistador.

Hoje, os dois são avaliados.

O candidato pela resposta.

O jornalista pela pergunta.

E, entre os dois, está o cidadão.

Apenas registro uma impressão: ao assistir às duas entrevistas, tive a sensação de que a intensidade da cobrança não pareceu exatamente a mesma em todos os momentos.

Pode ser uma percepção equivocada.

Pode ser uma diferença de estilo.

Pode ser consequência dos temas abordados.

Mas é uma percepção que merece ser discutida.

E talvez a maior vitória de uma entrevista política seja justamente esta:

o candidato sair do estúdio sem saber se convenceu o eleitor — e o eleitor sair sabendo um pouco mais sobre quem está pedindo seu voto.

Essa é a régua.

E essa deveria ser a mesma para todos.

João Pessoa, agosto de 2026.