A EMBRIAGUEZ DA PROPAGANDA – Novo artigo de Demétrius Faustino

A EMBRIAGUEZ DA PROPAGANDA

 

Demétrius Faustino

 

A crônica de Ruy Castro é construída com a elegância irônica que marca seus textos: leve na forma, mas profundamente crítica no conteúdo. Sob o tom aparentemente descontraído, o autor desmonta uma contradição brasileira que se tornou tão cotidiana que quase passa despercebida — a naturalização do consumo de álcool, especialmente da cerveja, entre adolescentes e jovens.

Logo no início, o cronista utiliza manchetes de jornais para mostrar que o problema não é isolado, mas social e estrutural. O dado mais inquietante não é apenas o aumento do consumo, mas a forma como a indústria se antecipa, moldando futuros consumidores desde a infância. Quando ele menciona que os comerciais inserem elementos capazes de atrair crianças “sub-10”, a crítica deixa de ser apenas moral e passa a atingir diretamente a lógica do mercado: transformar dependência cultural em estratégia comercial.

A ironia aparece com força quando Ruy Castro afirma que, no Brasil, bebidas alcoólicas “incluem tudo que não seja cerveja”. A frase é espirituosa, mas denuncia uma hipocrisia institucional. Enquanto outras bebidas sofrem restrições severas de propaganda, a cerveja é vendida como símbolo de alegria, amizade, futebol, verão e patriotismo. Ela deixa de ser apenas bebida e se transforma em identidade cultural.

O autor também critica o uso de celebridades no incentivo ao consumo. O comercial protagonizado por Ronaldo Nazário é retratado como um espetáculo de cinismo publicitário: o consumo da cerveja aparece associado ao amor pelo clube de futebol, como se abrir uma lata fosse um ato de fidelidade esportiva. A repetição caricatural do “Assim!” reforça justamente o vazio da mensagem — não importa o conteúdo, mas a associação emocional criada pela propaganda.

Outro aspecto interessante da crônica é a presença do próprio narrador. Ao revelar que não bebe há 38 anos e que recorria à cerveja apenas “para fins urinários”, Ruy Castro usa o humor autodepreciativo para manter a leveza do texto. Essa estratégia aproxima o leitor e evita que a crítica soe moralista. Ele não assume a posição de pregador, mas de observador experiente de uma sociedade contraditória.

O fechamento é especialmente inteligente. Ao inverter o famoso slogan “beba com moderação” para “invistam com moderação”, o cronista cria um desfecho satírico que resume toda a crítica do texto: a publicidade tenta transformar o ato de beber em investimento emocional, afetivo e até esportivo. O consumo deixa de ser escolha pessoal e passa a ser apresentado como dever coletivo, quase patriótico.

Assim, a crônica não é apenas sobre cerveja ou propaganda. Ela trata da manipulação do desejo, da banalização do álcool e da forma como a sociedade brasileira convive, sem grande incômodo, com estímulos permanentes ao consumo entre jovens. Tudo isso expresso com humor refinado, ironia elegante e crítica social afiada — marcas clássicas da escrita de Ruy Castro.

João Pessoa, agosto de 2026.