EM NOME DO PAI – Artigo de Demétrius Faustino

EM NOME DO PAI

 

Demétrius Faustino

 

A política brasileira já produziu slogans de todos os tipos. “Brasil acima de tudo”, “Ordem e Progresso”, “Diretas Já”, “O petróleo é nosso”. Agora chegamos a uma inovação semântica que dispensa marqueteiro, pesquisa qualitativa e até candidato: “Em nome do pai”.

É o slogan da campanha de Flávio Bolsonaro.

Convenhamos: há slogans que vendem uma ideia. Outros vendem um projeto. Alguns vendem esperança. Este, pelo menos, vende honestidade — talvez involuntária.

Porque “Em nome do pai” tem uma qualidade rara na política: não tenta esconder a origem do produto.

Não é exatamente “Flávio, o candidato”. É Flávio, edição familiar, modelo filho 01, com sobrenome de fábrica e garantia estendida pelo pai. A própria campanha parece ter concluído que, se tirar “Bolsonaro” do nome, sobra pouco espaço no santinho.

E o mais curioso é que ninguém precisa mais perguntar quem escolheu Flávio.

O próprio candidato já explicou.

Na convenção partidária, o discurso deixou claro que Jair Bolsonaro continua sendo a principal referência da candidatura.

É uma espécie de eleição por procuração, só que com urna eletrônica.

O eleitor vota em Flávio, mas recebe Jair no pacote. É como comprar um produto novo e descobrir, na caixa, que a novidade é apenas a atualização do modelo anterior.

A estratégia é tão explícita que chega a ser comovente.

Em determinado momento, a campanha chegou a cogitar trabalhar mais com o nome “Flávio”, justamente para diminuir a dependência do sobrenome. Depois mudou de rumo e resolveu abraçar de vez a herança política do pai.

E fez muito bem.

Afinal, para que esconder o sobrenome se ele é justamente o principal ativo eleitoral?

Seria como vender uma Ferrari com o logotipo coberto por um pano e dizer: “Confiem, o motor é ótimo”.

Flávio resolveu fazer o contrário: tirou o pano.

“Em nome do pai.”

É quase uma certidão de nascimento eleitoral.

Faltou apenas completar:

“Em nome do pai, do filho e do eleitorado fiel, amém.”

Mas há uma questão interessante nisso tudo.

Imagine se outros candidatos adotassem a mesma sinceridade.

Um candidato tradicional poderia lançar: “Em nome do partido.”

Outro: “Em nome do fundo eleitoral.”

Um terceiro: “Em nome das pesquisas.”

E aquele político que muda de posição conforme sopra o vento poderia escolher: “Em nome das circunstâncias.”

Seria uma revolução na propaganda eleitoral brasileira.

Finalmente os candidatos diriam aquilo que realmente querem dizer.

No caso de Flávio, a mensagem parece ser: “Eu sou eu, mas não completamente. Meu pai está aqui. Meu pai escolheu. Meu pai orienta. Meu pai representa. Meu pai é o passado, o presente e, se possível, o futuro.”

Tanto que uma análise publicada pela Folha chegou a uma conclusão deliciosamente irônica: Flávio estaria, politicamente, ocupando o lugar de vice de sua própria candidatura, enquanto Jair continua no centro da cena.

É uma inovação administrativa extraordinária.

Normalmente o vice acompanha o candidato.

Neste caso, o candidato é quem acompanha o pai.

É como se a campanha presidencial tivesse sido organizada assim:

— Quem é o candidato?

— Flávio.

— E quem manda?

— O pai.

— E quem aparece?

— Os dois.

— E quem está concorrendo?

— O filho.

— E quem está sendo lembrado?

— O pai.

— E quem vai governar?

— Calma, primeiro precisa ganhar.

Tudo muito simples.

No fundo, “Em nome do pai” talvez seja o slogan político mais sincero da temporada.

Porque não promete independência.

Não promete ruptura.

Não promete uma nova liderança.

Promete continuidade genética.

É quase um programa de governo baseado em DNA.

E há uma vantagem: pelo menos o eleitor já sabe exatamente o que está comprando.

Não existe propaganda enganosa.

A embalagem diz “filho”.

O conteúdo lembra “pai”.

E a nota fiscal, como sempre na política brasileira, fica para depois.

No final, talvez a grande ironia seja esta: Flávio não precisou dizer que é candidato por ser filho de Jair Bolsonaro.

Bastou colocar isso no slogan.

“Em nome do pai.”

E pronto.

A campanha fez aquilo que os políticos raramente fazem:

admitiu o óbvio.

João Pessoa, agosto de 2026.