AS VISITAS QUE DIZEM: “É RAPIDINHO” – Novo artigo de Demétrius Faustino

AS VISITAS QUE DIZEM: “É RAPIDINHO”

 

Demétrius Faustino

 

Há uma expressão que deveria constar no dicionário das grandes ironias da língua portuguesa: “É rapidinho”.

Ela costuma chegar sem aviso, acompanhada do toque da campainha ou de uma mensagem enviada cinco minutos antes: “Estou passando por aí. É rapidinho.”

O dono da casa, inocente, acredita. Abre o portão, oferece um café por educação e imagina que, em quinze minutos, estará retomando sua leitura, seu cochilo ou o jogo de futebol na televisão.

Doce ilusão.

O “rapidinho” tem uma curiosa elasticidade. Quinze minutos transformam-se em uma hora. Uma hora vira duas. O café pede um biscoito, que chama um pedaço de bolo, que desperta outra rodada de café. Quando se percebe, o almoço já foi servido e a visita comenta, com a maior naturalidade do mundo:

— Nem vou almoçar… só vou beliscar um pouquinho.

Belisca como quem participa de um campeonato.

O mais interessante é que essas visitas nunca parecem notar a passagem do tempo. Conversam sobre política, futebol, preço da gasolina, a novela, o vizinho, o parente distante e até sobre uma cirurgia feita por alguém que ninguém conhece. Quando um assunto ameaça terminar, outro nasce milagrosamente.

Enquanto isso, o anfitrião desenvolve uma habilidade quase teatral. Sorri, concorda, responde e, discretamente, olha para o relógio. Depois olha de novo. Levanta para buscar água, imaginando que seja um sinal. Não é. A visita interpreta como mais um gesto de hospitalidade.

Há quem tente estratégias sofisticadas. Guarda as xícaras. Desliga a televisão. Começa a varrer a sala. Comenta que precisa sair. Mesmo assim, escuta a clássica resposta:

— Então eu vou só terminar essa história…

E a história, naturalmente, tem começo, meio, fim e várias interrupções para lembrar de outras histórias.

Curiosamente, essas mesmas pessoas, quando recebem alguém em casa, consultam o relógio após vinte minutos e perguntam, delicadamente:

— Você já vai?

Talvez seja uma lei invisível da convivência humana: o tempo corre diferente para quem visita e para quem recebe.

Apesar de tudo, confesso que há certa beleza nisso. Vivemos tempos em que muitos sequer batem à porta. Conversam por mensagens curtas, enviam emojis em vez de abraços e substituem a presença por uma chamada de vídeo. As visitas demoradas, embora às vezes testem nossa paciência, ainda carregam algo precioso: a vontade de estar junto.

Talvez o segredo não seja eliminar o “é rapidinho”, mas aprender a rir dele. Afinal, as melhores histórias quase sempre começam com uma frase inocente… e terminam horas depois, quando a porta finalmente se fecha e a casa recupera o silêncio.

E, no fundo, já sabemos: quando alguém disser “é rapidinho”, convém colocar mais água no bule. Só por garantia.

João Pessoa, agosto de 2026.