Demétrius Faustino
A Copa do Mundo sempre chega ao Brasil envolta por um sentimento quase religioso. Quando a Seleção entra em campo, não são apenas onze jogadores correndo atrás da bola. Entram também milhões de expectativas, memórias de títulos, fantasmas de derrotas e a eterna esperança do hexacampeonato.
Na noite da estreia contra o Marrocos, em Nova Jersey, a camisa amarela voltou a carregar esse peso. Do outro lado, porém, não estava uma seleção qualquer. O Marrocos que encantou o mundo em 2022 mostrou novamente que o futebol africano já não aceita o papel de coadjuvante. E foi justamente isso que se viu no empate por 1 a 1.
Os primeiros minutos pareciam contar uma história inesperada. O Brasil mostrava nervosismo, enquanto os marroquinos jogavam com confiança, ocupando espaços e impondo intensidade. Quando Saibari encobriu Alisson e abriu o placar, a torcida brasileira sentiu aquele velho frio na barriga que só a Copa do Mundo é capaz de provocar.
Mas seleções grandes costumam encontrar seus heróis nos momentos difíceis. E Vinícius Júnior assumiu esse papel. Em uma jogada de puro talento, empatou a partida e devolveu o fôlego à equipe de Carlo Ancelotti. O gol foi um daqueles lances que lembram por que o futebol brasileiro ainda desperta admiração no planeta inteiro: criatividade, improviso e brilho individual.
O segundo tempo trouxe mais luta do que espetáculo. O Brasil tentou controlar o jogo; o Marrocos respondeu com organização e personalidade. Ao apito final, o placar de 1 a 1 deixou sensações diferentes. Para os marroquinos, a confirmação de que podem enfrentar qualquer adversário de igual para igual. Para os brasileiros, a certeza de que o caminho rumo ao hexa será muito mais complicado do que muitos imaginavam.
Talvez essa seja a principal lição da estreia. A Copa do Mundo não respeita favoritismos escritos em jornais, rankings ou camisetas históricas. Ela exige futebol, concentração e coragem a cada partida.
O empate não foi uma tragédia. Também não foi um desastre. Foi apenas o primeiro capítulo de uma longa caminhada. Mas, como toda boa estreia de Mundial, deixou uma pergunta no ar: o Brasil mostrou força suficiente para ser campeão ou apenas sobreviveu à primeira tempestade?
A resposta virá nos próximos jogos. O futebol tem essa característica singular de transformar dúvidas em certezas — e certezas em dúvidas — no espaço de apenas noventa minutos. Uma estreia irregular pode ser esquecida por uma grande atuação na rodada seguinte, assim como um início promissor pode perder valor diante de um tropeço inesperado. A Copa do Mundo é uma competição de resistência emocional, onde cada partida escreve um novo capítulo e redefine as expectativas de torcedores e especialistas.
E, como sempre acontece quando a Seleção Brasileira entra em campo, o país inteiro continuará esperando. Nas grandes cidades e nos pequenos povoados, nos bares movimentados e nas salas silenciosas das casas, milhões de brasileiros seguirão acompanhando cada lance, cada passe e cada gol com a mesma intensidade de quem acredita que a história ainda está sendo escrita. Afinal, a Seleção nunca pertence apenas aos jogadores que vestem a camisa; ela pertence também às gerações que cresceram ouvindo histórias de Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros que ajudaram a construir a mística do futebol brasileiro
O sonho do hexa, apesar dos tropeços, nunca deixa de existir. Ele resiste às eliminações dolorosas, às críticas da imprensa, às desconfianças da torcida e aos momentos de instabilidade. Sobrevive porque faz parte da identidade esportiva do país. Cada Copa renova a esperança de ver a taça novamente erguida por mãos brasileiras, de ouvir o hino ecoando em um estádio lotado e de testemunhar mais uma vez o verde e amarelo ocupar o centro do palco do futebol mundial.
João Pessoa, junho de 2026.
