RECIFE, O ABRAÇO QUE A SELEÇÃO NÃO ESQUECEU – Artigo de Demétrius Faustino

RECIFE, O ABRAÇO QUE A SELEÇÃO NÃO ESQUECEU

 

Demétrius Faustino

 

Nestes dias em que a Seleção Brasileira voltou a desfilar pelo Maracanã sob luzes, aplausos e cerimônias cuidadosamente preparadas, vale a pena abrir o baú da memória. O futebol, como a vida, costuma ser generoso com os vencedores e severo com aqueles que ainda não provaram seu valor. E a história, por vezes, guarda ironias que o tempo insiste em esconder.

Em 1994, o Brasil embarcou para os Estados Unidos carregando mais dúvidas do que certezas. A camisa amarela ainda pesava pelos fracassos recentes, e a torcida parecia desconfiar daquele time comandado por Carlos Alberto Parreira. No Maracanã, longe da festa que hoje se vê, a seleção chegou a ouvir vaias. Em Salvador, a recepção também esteve longe da unanimidade. Havia cobrança, impaciência e uma certa descrença nacional.

Foi em Recife que o cenário começou a mudar. O povo pernambucano, como tantas vezes acontece no Nordeste, ofereceu algo que vai além do simples apoio esportivo: ofereceu confiança. Ali a seleção encontrou calor humano, entusiasmo e uma torcida disposta a acreditar quando muitos já duvidavam.

Pouco tempo depois, o mundo assistiria ao desfecho daquela jornada. Nos gramados americanos, o Brasil conquistou o tetracampeonato e encerrou um jejum de vinte e quatro anos sem levantar a Copa do Mundo. Os mesmos jogadores que partiram sob desconfiança retornaram como heróis nacionais.

Mas há detalhes que a memória coletiva, às vezes, deixa escapar. Quando a delegação campeã voltou ao Brasil, Recife foi uma das primeiras paradas da comemoração. Não se tratava apenas de logística. Havia ali um gesto simbólico, quase uma retribuição. A cidade que abraçou a seleção quando ela ainda precisava provar seu valor foi lembrada quando chegou a hora da celebração.

E não era a primeira vez. Em 1958, após a conquista da primeira Copa do Mundo da história brasileira, Recife também figurou entre os destinos que receberam o carinho dos campeões. Como se a capital pernambucana ocupasse, silenciosamente, um lugar especial na geografia sentimental do futebol brasileiro.

Talvez porque o Recife compreenda como poucos a alma do futebol. Uma alma feita de paixão, mas também de fidelidade. De apoio quando o triunfo ainda não chegou. Porque a verdadeira torcida não se revela apenas na volta dos campeões; ela se revela principalmente na partida dos desacreditados.

Hoje, quando vemos a Seleção novamente cercada por festas e homenagens, é justo recordar que nem sempre foi assim. Houve um tempo em que as vaias ecoavam mais alto que os aplausos. E houve um lugar onde, antes da glória, a esperança falou mais alto que a desconfiança.

Esse lugar chamava-se Recife.

E a Seleção Brasileira nunca esqueceu disso.

João Pessoa, junho de 2026.