O FLAMENGO NÃO PODE SER SÓ VITÓRIA – Confira o novo artigo de Demétrius Faustino

O FLAMENGO NÃO PODE SER SÓ VITÓRIA

 

Demétrius Faustino

 

Tem uma diferença curiosa entre o flamenguista carioca e aquele torcedor espalhado pelo Brasil afora. Não digo isso em tom de superioridade, porque o Flamengo talvez seja o único clube capaz de fazer alguém nascer longe do Rio de Janeiro e ainda assim sentir o coração bater como se estivesse na arquibancada do Maracanã. Mas existe uma diferença. E ela aparece, sobretudo, nos dias ruins.

O carioca, acostumado ao peso da arquibancada, parece carregar uma convivência mais antiga com o sofrimento rubro-negro. Aprendeu cedo que o Flamengo não vive apenas de títulos, goleadas e festas. Aprendeu a voltar pra casa depois de derrotas dolorosas, eliminações traumáticas e noites em que nada dá certo. E mesmo reclamando — porque flamenguista reclama até quando ganha — existe ali uma espécie de pacto silencioso: “é meu time, eu vou continuar aqui”.

Talvez por isso o sujeito saia irritado do estádio, xingando treinador, criticando jogador, prometendo nunca mais voltar… mas no domingo seguinte está novamente lá, camisa no peito, fé renovada e a velha esperança de sempre.

Já parte da torcida que acompanha de longe, muitas vezes moldada pela televisão e pelas redes sociais, parece viver uma relação mais imediatista. Quando o time joga mal, começa o julgamento instantâneo: o craque vira pereba, o técnico vira incompetente, o elenco inteiro “não presta”. Mas basta uma boa vitória para os mesmos personagens voltarem a ser chamados de gênios, ídolos e melhores do mundo.

É como se a paixão existisse, mas a tolerância ao sofrimento fosse menor.

No Rio, especialmente entre os mais antigos, ainda sobrevive aquela ideia antiga do “na alegria e na tristeza”. Porque o Flamengo, para muita gente, não é apenas um clube; é quase uma herança emocional. E quem ama de verdade entende uma coisa simples: se o Flamengo fosse apenas vencer, vencer e vencer, o futebol perderia a graça.

A beleza do futebol está justamente no drama. Está na angústia de uma final difícil, no medo da derrota, na tensão dos noventa minutos e na capacidade de continuar amando o clube mesmo quando ele decepciona. Ganhar sempre transformaria o futebol numa obrigação mecânica, fria, sem emoção. Não existiria superação, nem catarse, nem aquela explosão inexplicável de felicidade depois de uma vitória sofrida.

O Flamengo é gigante não porque nunca perde, mas porque consegue mobilizar milhões até quando perde.

Claro que isso não é regra absoluta. Há torcedores fiéis espalhados pelo Brasil inteiro e também existe imediatismo dentro do próprio Rio. Mas talvez haja uma diferença cultural: o carioca aprendeu a conviver com o Flamengo real, cheio de glórias e tropeços; enquanto parte da torcida distante, às vezes, parece apaixonada por um Flamengo imaginário, obrigado a ser perfeito o tempo inteiro.

E nenhum clube é. Nem deve ser.

João Pessoa, maio de 2026.