QUANDO A DIREITA PASSA A EXCLUIR A PRÓPRIA DIREITA
Demétrius Faustino
A direita brasileira vive um curioso campeonato interno de pureza ideológica. Nele, cada grupo tenta convencer o eleitor de que é “a verdadeira direita”, enquanto o outro é apenas uma fraude com marketing melhor. E foi justamente aí que o chamado “Bolsomaster” tropeçou feio: transformou um escândalo que poderia atingir um campo político inteiro numa narrativa exclusiva de devoção pessoal.
O problema não foi apenas defender aliados — política sempre teve disso. O problema foi agir como se o restante da direita fosse um detalhe descartável, um conjunto de figurantes obrigados a aplaudir sem participar do roteiro. No instante em que a crise apareceu, o discurso deixou de ser “nós” e virou “eles e nós”. E, curiosamente, o “eles” passou a incluir conservadores, liberais, ruralistas, militares reformados, influenciadores patrióticos e até antigos companheiros de palanque.
É uma espécie de condomínio ideológico onde só o síndico pode falar.
A ironia é que muitos dos grupos hoje tratados como secundários ajudaram a construir a força eleitoral que sustentou o bolsonarismo. Havia ali gente preocupada com economia, segurança pública, corrupção, liberdade de expressão, costumes e rejeição ao PT. Nem todos eram fiéis de carteirinha; muitos eram apenas passageiros do mesmo ônibus político. Quando o escândalo surge e a reação oficial é fechar o círculo em torno de uma figura única, o ônibus perde passageiros — e rápido.
A direita brasileira sempre foi muito maior do que um sobrenome. Ela existia antes do fenômeno eleitoral e continuará existindo depois dele. Mas parte do bolsonarismo parece acreditar que qualquer divergência é traição e que qualquer liderança paralela precisa ser esmagada antes de crescer dois centímetros.
Isso funciona por um tempo. Depois vira seita.
E se há algo que a política brasileira já ensinou, é que movimentos que confundem liderança com exclusividade acabam envelhecendo mal. Porque eleitor tolera vaidade; o que ele não tolera por muito tempo é ser tratado como integrante obrigatório de torcida organizada.
No fim, o “Bolsomaster” talvez tenha cometido o pecado mais perigoso para um movimento político: acreditar que representa sozinho uma parcela inteira do país. Quando alguém passa a enxergar aliados como acessórios descartáveis, descobre tarde demais que nenhuma direita sobrevive apenas de espelho, eco e aplauso interno.
Porque nenhuma direita — nem esquerda, nem centro — consegue sobreviver apenas de eco, fidelidade emocional e guerras internas permanentes. Política exige expansão. Exige composição. Exige convivência até com os desconfortos inevitáveis da pluralidade. Quando isso desaparece, sobra apenas a caricatura de um movimento que, de tanto olhar para si mesmo, já não consegue mais enxergar o país ao redor.
João Pessoa, maio de 2026.
