A ÉTICA DO CAMISA 10: O ARTESÃO DO FUTEBOL – Confira o novo artigo de Demétrius Faustino

A ÉTICA DO CAMISA 10: O ARTESÃO DO FUTEBOL

 

Demétrius Faustino

 

Assistir a Zico, O Samurai de Quintino é, antes de tudo, bater de frente com uma ideia que o futebol de hoje parece querer deixar de lado: a de que dá, sim, pra juntar talento e disciplina sem precisar abrir mão de um ou de outro.

Num tempo em que o talento muitas vezes vira só espetáculo rápido — feito pra impressionar na hora e ser consumido quase sem pensar —, o filme puxa a gente de volta pra uma visão mais antiga de excelência. Aquela que vem do trabalho diário, das horas acumuladas, de repetir o mesmo gesto até ficar perfeito, da paciência de quem sabe que o extraordinário, na maioria das vezes, nasce de método e insistência.

O documentário não fica só exaltando o ídolo; ele vai além e constrói, com um ritmo tranquilo e um olhar cheio de carinho, uma imagem quase mítica de Zico — como alguém dividido entre a leveza criativa do camisa 10 e a disciplina rígida de quem trata o próprio talento como um ofício.

E essa construção funciona muito bem porque brinca com os contrastes: de um lado, o jogador que improvisa, que inventa jogadas improváveis em segundos; do outro, o cara que encara o treino quase como um ritual, uma rotina levada a sério, como se fosse uma prática quase espiritual. Fica aquela ideia bem forte de dedicação total, de alguém que trata o futebol como um verdadeiro trabalho artesanal, no sentido mais clássico mesmo.

Essa tensão entre inspiração e disciplina é o que segura toda a narrativa. O filme deixa entender — sem precisar ficar explicando demais — que o brilho de Zico não vem de um dom misterioso, desses que aparecem do nada, mas de uma relação muito próxima com o trabalho, com o treino do dia a dia.

E é aí que o título ganha mais peso: o “samurai” não está ali só como enfeite ou estilo, mas como uma ideia mesmo, quase um jeito de viver. Como um guerreiro que busca aperfeiçoar sua técnica até o limite, Zico aparece como alguém que vai lapidando o próprio corpo e a forma de jogar com uma disciplina forte, quase levada ao extremo.

 

Ao expandir essa ideia, o documentário também opera uma espécie de crítica implícita ao presente. Ele nos convida a perguntar se ainda há espaço, no futebol contemporâneo, para trajetórias que se constroem com esse tipo de coerência interna — sem atalhos, sem concessões ao imediatismo. A figura de Zico surge, então, não apenas como memória, mas como contraponto: um lembrete de que o verdadeiro talento talvez não seja o que surge pronto, mas o que se constrói, dia após dia, com obstinação e consciência.

Nesse sentido, o filme ultrapassa o retrato biográfico e se aproxima de um ensaio sobre a própria natureza da excelência. O homem de Quintino não é apresentado apenas como ídolo, mas como paradigma — alguém que encarna uma forma de estar no mundo em que beleza e disciplina não se excluem, mas se alimentam mutuamente. E é justamente essa síntese rara que o documentário, com sensibilidade e contenção, consegue capturar.

A narrativa evita o tom meramente celebratório. Em vez disso, aposta numa costura de memórias, arquivos e depoimentos que revelam o quanto a trajetória de Zico foi menos um acaso do talento e mais um projeto de obstinação. Há, inclusive, uma escolha estética interessante: o filme parece sempre recusar o espetáculo fácil. Não há pirotecnia. O que se vê é uma construção quase silenciosa da grandeza — como se o próprio documentário imitasse o comportamento do jogador fora de campo: discreto, mas implacável.

O título não é gratuito. O “samurai” não surge como metáfora vazia, mas como chave de leitura. A passagem de Zico pelo Kashima Antlers (e, antes, pelo futebol japonês de modo geral) é tratada como um rito de transformação, onde o craque brasileiro encontra uma cultura que valoriza a repetição, o aperfeiçoamento contínuo e a honra no ofício. O documentário acerta ao não exotizar o Japão, mas sim ao mostrar como Zico se reconhece nesse espelho cultural.

Por outro lado, o filme também lida com a ausência — e aqui reside um de seus pontos mais fortes. A sombra da Copa do Mundo de 1982 paira como um fantasma inevitável. Não há ressentimento explícito, mas há uma melancolia contida, quase elegante. O documentário sugere, sem precisar afirmar, que Zico é um dos maiores jogadores que o futebol não soube consagrar com o troféu que o senso comum exige. E talvez seja justamente isso que o eleva: sua grandeza não depende de um título.

“Zico, O Samurai de Quintino” não é um filme sobre futebol. Ele fala de disciplina, de caráter e da solidão que muitas pessoas enfrentam quando escolhem ser melhores, sem deixar de ser quem são.

O que mais marca não são os gols mostrados, mas a sensação que fica quando o filme termina — um silêncio que parece uma forma de respeito e admiração pela história de Zico.

João Pessoa, abril de 2026.