QUANDO O CINEMA BRASILEIRO FALA AO MUNDO
Demétrius Faustino
Há momentos em que a gente sai do cinema com a sensação de que viu mais do que um filme. Viu um retrato do país, um pedaço da nossa história e, principalmente, uma prova de que o talento brasileiro continua vivo. Foi exatamente essa impressão que ficou depois de assistir O Agente Secreto.
A sala escura, a tela acesa e, de repente, lá está o Brasil — cheio de tensão, de camadas, de memórias políticas e humanas. A direção de Kleber Mendonça Filho conduz tudo com aquela habilidade rara de quem sabe transformar história e atmosfera em cinema de verdade. Cada cena parece carregada de intenção, como se o silêncio também falasse.
E quando surge Wagner Moura, o filme ganha ainda mais peso. Ele não apenas interpreta; ele habita o personagem. O espectador sente que está diante de um ator que compreende profundamente a tradição do nosso cinema e também o momento atual dele.
Mas o que mais impressiona é perceber o quanto o cinema brasileiro evoluiu.
Houve um tempo em que muitos achavam que nossas produções não poderiam competir em qualidade técnica ou narrativa com o cinema estrangeiro. Hoje isso soa quase absurdo. A fotografia é sofisticada, os roteiros são complexos, os atores têm presença internacional e os diretores dominam a linguagem cinematográfica com maturidade.
Filmes como O Agente Secreto mostram que o Brasil produz cinema autoral, inteligente e universal. Não é cópia de Hollywood. É algo com identidade própria — nordestina, urbana, histórica, política, humana.
E aí surge uma pergunta inevitável.
Se temos talento, criatividade e histórias poderosas, por que ainda precisamos lutar tanto para que a cultura seja valorizada?
Ao longo da história brasileira, não foram raros os momentos em que a cultura foi tratada pelos governantes como uma questão menor, quase um adorno dispensável diante de outras prioridades consideradas mais urgentes. Em diferentes períodos, políticas públicas voltadas à arte e à produção cultural foram reduzidas, interrompidas ou simplesmente deixadas em segundo plano, como se o investimento nesse campo fosse um luxo reservado a tempos de abundância, e não uma necessidade permanente de qualquer sociedade que valorize sua identidade e sua memória.
Quando ocorrem cortes de financiamento ou a descontinuidade de programas culturais, os efeitos aparecem rapidamente. Projetos são interrompidos, editais deixam de existir, festivais desaparecem do calendário e espaços culturais passam a sobreviver com dificuldades. Essa retração não atinge apenas artistas conhecidos ou produções de grande visibilidade; ela alcança toda uma cadeia de profissionais que trabalham nos bastidores da criação artística. Roteiristas, atores, técnicos de iluminação, montadores, figurinistas, cenógrafos, músicos, produtores e pesquisadores dependem, em muitos casos, de políticas públicas que estimulem e viabilizem a produção cultural.
Isso é um erro enorme.
Cultura não é gasto inútil — é investimento em identidade, memória e economia criativa. Um filme mobiliza roteiristas, atores, figurinistas, eletricistas, músicos, montadores, técnicos de som e centenas de profissionais. É trabalho, é arte e é também projeção internacional do país.
Quando um filme brasileiro se destaca, ele leva consigo um pedaço do Brasil para o mundo.
Por isso, ao sair da sessão de O Agente Secreto, fica uma sensação dupla. De um lado, orgulho. Orgulho de ver o nível que nosso cinema alcançou.
Do outro, a consciência de que ele chegou até aqui muitas vezes apesar das dificuldades, e não por causa do apoio que deveria receber.
Ainda assim, o cinema brasileiro insiste em florescer.
Talvez porque artistas brasileiros tenham essa teimosia bonita: mesmo quando faltam recursos, sobra imaginação. E quando a imaginação encontra talento, acontece aquilo que vimos na tela — um filme que não apenas entretém, mas faz pensar, sentir e lembrar que o Brasil também sabe contar grandes histórias.
Se chegar ou não à estatueta é algo que estamos prestes a saber. Mas o simples fato de um filme brasileiro alcançar essa projeção internacional já demonstra que, quando a cultura encontra espaço para existir e se desenvolver, o resultado pode colocar o país inteiro em evidência no cenário mundial.
Quando um filme brasileiro chega a esse nível de visibilidade, ele não representa apenas sua equipe ou seu diretor; ele carrega consigo a vitalidade cultural de um país inteiro, reafirmando que investir em cultura é também investir na imagem, na memória e no futuro do Brasil.
João Pessoa, março de 2026.
