ALÉM DO GATILHO: O JULGAMENTO DOS MANDANTES
Demétrius Faustino
Há semanas que passam como qualquer outra. E há semanas que parecem pedir silêncio antes de começar. Esta foi assim. A semana em que os mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes sentaram-se no banco dos réus não foi apenas mais um capítulo judicial — foi um daqueles momentos em que o país se vê obrigado a olhar para si mesmo.
Durante anos, a pergunta ecoou como uma batida insistente: não apenas quem puxou o gatilho, mas quem ordenou que ele fosse puxado. A diferença entre o executor e o mandante é a diferença entre a mão e a intenção. E, nesta semana, o tribunal voltou-se justamente para essa intenção — mais invisível, mais estratégica, mais difícil de provar.
Do lado de fora, não havia a mesma explosão de cartazes dos primeiros meses após o crime. O tempo ensina o país a seguir em frente, ainda que as feridas não estejam totalmente fechadas. Mas havia atenção. Havia expectativa. Havia uma espécie de vigília cívica menos ruidosa e mais amadurecida.
Dentro do plenário, o ambiente era outro: técnico, contido, quase cirúrgico. Falava-se em vínculos, em rastros financeiros, em conexões políticas, em elementos colhidos ao longo de anos de investigação. A acusação buscava costurar uma narrativa coerente que demonstrasse que o crime não foi apenas executado — foi concebido. A defesa insistia na insuficiência probatória, na necessidade de cautela, na centralidade da presunção de inocência.
Julgar mandantes é sempre atravessar uma névoa. Não há arma na mão, não há imagem capturada no instante exato do disparo. Há mensagens, reuniões, interesses, contextos. Há, sobretudo, a pergunta fundamental: é possível demonstrar, além de dúvida razoável, que a ordem partiu dali?
A semana avançou entre sustentações, apartes e olhares atentos. Cada palavra parecia carregar o peso não apenas de um processo, mas de uma expectativa histórica. Porque, se o julgamento dos executores respondeu parte da tragédia, o dos mandantes toca no nervo mais profundo: o da responsabilidade intelectual pelo crime.
Quando o veredito foi anunciado, não houve cena de filme. Houve tensão dissolvida lentamente. Houve quem respirasse fundo, quem chorasse em silêncio, quem permanecesse imóvel. Nenhuma decisão judicial reescreve a noite de 14 de março de 2018. Mas decisões constroem memória institucional. Dizem o que o Estado aceita — e o que não aceita.
No decorrer da semana, ficou a sensação de que não se tratava apenas de indivíduos julgados, mas de um princípio reafirmado: o de que a democracia não pode tolerar que a divergência política se transforme em sentença de morte. Julgar os mandantes foi, mais do que punir — foi afirmar que a sombra também responde à luz.
E, quando as luzes do plenário se apagaram, restou algo que não cabe nos autos: a impressão de que o país, ainda que lentamente, tenta aprender que justiça não é vingança, mas responsabilidade. E que responsabilidade, quando alcança todos os níveis do crime, é o que sustenta a ideia de República.
João Pessoa, fevereiro de 2026.
