UM ANO VESTIDO DE FLAMENGO – Artigo de Demétrius Faustino

UM ANO VESTIDO DE FLAMENGO

 

Demétrius Faustino

 

Se 2025 fosse um romance, começaria com um Flamengo em ritmo de soneto: bonito de ver, preciso nos versos e sempre com aquele refrão capaz de arrebatar o coração da torcida antes mesmo do apito final. Havia cadência no toque de bola, intenção em cada movimento, como se o time soubesse exatamente a hora de acelerar o enredo e o momento certo de pausar, deixando o estádio em suspensão. Desde os primeiros acordes no Campeonato Carioca, quando o Maracanã ainda cheirava a começo de ano e esperança renovada, até os acordes finais no gramado distante de Doha, a temporada foi daquelas que se conta e se reencontra, depois, nos sonhos insistentes da nação rubro-negra.

Era janeiro quando o Mengão entrou em campo como quem diz: “Estamos prontos”. Vitória atrás de vitória, a defesa quase impenetrável e o ataque com fome de gol — até parecia que a bola tinha vontade própria de bater nas redes adversárias. No Brasileirão, o Flamengo assumiu a liderança cedo e tratou de defendê-la como quem protege algo precioso. Não houve arrancadas desesperadas nem tropeços longos: houve constância. O time mandava nos jogos, controlava o ritmo, escolhia quando acelerar e quando esfriar a partida. Dominou estatísticas, mas, mais do que isso, dominou sensações. Era o melhor ataque sem ser inconsequente, a melhor defesa sem ser retrancada. Uma campanha de gala, dessas que não dependem apenas de números frios, mas de memória afetiva — daquelas que o torcedor lembra do jeito que o time jogava, não só de quanto ganhou.

Arrascaeta, com seu futebol quase cinematográfico, viveu um ano mágico, daqueles que parecem roteirizados por algum diretor apaixonado por finais felizes. Cada toque seu carregava intenção, cada passe vinha com endereço certo, como se enxergasse espaços invisíveis aos olhos comuns. Não jogava apenas a bola: conduzia o jogo, organizava o caos e dava sentido ao que antes parecia improviso. Em 2025, foi mais do que um meia — foi o fio condutor da narrativa rubro-negra.

Triplicou seus números de gols em relação a 2024, mas reduzi-lo a estatística seria uma injustiça. Seus gols vinham sempre carregados de contexto: chutes colocados, infiltrações precisas, aparições inesperadas na área, como quem surge no enquadramento perfeito. E quando não marcava, criava. Servia companheiros, desmontava defesas, arrancava suspiros da arquibancada e palavrões resignados dos adversários. Era o tipo de jogador que faz o torcedor levantar da cadeira antes mesmo do lance terminar.

Com Arrascaeta, o meio-campo virou poesia em movimento. O jogo ganhou ritmo, pausa e beleza. Ele entendia o tempo da partida como poucos, sabendo quando acelerar o verso e quando alongar a estrofe. Em um futebol cada vez mais físico e apressado, seu talento foi um lembrete raro de que pensar ainda é um diferencial. Em 2025, o Flamengo teve muitos protagonistas, mas poucos foram tão decisivos quanto o uruguaio que transformou o meio-campo em arte e fez do ano uma lembrança difícil de apagar.

E o que dizer de títulos? Enquanto a Gávea explodia em festa, o clube foi campeão brasileiro, levantou a Libertadores e ainda somou taças como a Supercopa do Brasil e o Carioca — um cardápio farto de conquistas que deixou a Nação em êxtase.

Mas nem só de glórias fáceis vive uma grande história. No palco mundial, o Flamengo encarou gigantes. No Mundial de Clubes da FIFA, brilhou ao eliminar Chelsea com um 3×1 que ecoou como hino de superação e esperança. Depois, diante do Bayern, a luta foi dura — talvez dura demais — e resultou em eliminação.

O capítulo final, em Doha, trouxe emoção digna de novela mexicana: uma final da Copa Intercontinental que terminou empatada no tempo normal. Nos pênaltis, o Flamengo ficou com o vice para o PSG, num desfecho que doeu mas não desmereceu a grandeza da campanha.

Ao final do ano, como num balanço de vida que olha para trás sem arrependimentos, o Flamengo falou em “ano extraordinário”. E realmente foi: um ano em que se subiu montanhas, colecionou histórias e reafirmou sua força dentro e fora do Brasil.

Se 2025 tivesse um cheiro, seria de grama cortada no Maracanã. Se tivesse um som, seria a explosão de 58 mil vozes gritando “É campeão!”. E se tivesse um sabor, seria aquele mix de alegria e saudade por uma temporada que, mesmo com tropeços, nunca deixou de ser grande.

João Pessoa, dezembro de 2025.