O MAR, A TEIMOSIA E OS NOMES DA TERRA – Artigo de Demétrius Faustino

O MAR, A TEIMOSIA E OS NOMES DA TERRA

 

Demétrius Faustino

 

Há anos os cientistas avisam que o planeta está aquecendo e que o mar vai subir. Mas, se você passar uma manhã na Baía da Traição, vai achar que essa história ficou pelo caminho, presa num redemoinho entre Barra de Camaratuba e Ponta do Jaraguá.

Ali, a vida segue como sempre — só o mar é que anda com umas manias novas.

Logo cedo, quem aparece primeiro é Seu Doca, pousando a cadeira na areia como quem toma posse do pedaço de mundo que sempre foi seu. Pescador desde que “a lua mandava mais do que o relógio”, ele olha a maré de um jeito que não vem nos aplicativos:

— Isso aí é maré de lua velha — explica, enquanto coça o queixo. — Água sobe, água desce. E quando sobe demais… é porque alguém construiu coisa onde não devia.

Parece filosófico, mas é só bom senso de pescador.

Perto dele, Mestre Iranildo se aproxima com o violão debaixo do braço. Toca coco de roda desde menino e sempre diz que a música acompanha o mar, não o contrário. Quando a maré começa a lamber os pés da barraca, ele nem se abala:

— Se o mar quiser dançar, a gente toca — e dedilha um baião que faz o vento virar plateia.

Mais ao norte, na aldeia São Miguel, o cacique Marquinhos conversa com os jovens sobre como a maré anda tomando pedaço de falésia “como quem tira lasca de mandioca”. Ele aponta as áreas de erosão e diz, num tom que mistura tradição e alerta:

— O mar não tem pressa. Ele tem memória.

E quem já participou de alguma festa tradicional por lá sabe: quando o cacique fala disso, os mais velhos fazem silêncio respeitoso.

Nas barracas da praia, a movimentação aumenta. Zé Pequeno, que vende peixe desde a adolescência, reclama que a mesa de madeira teve que ser puxada mais pra trás:

— Daqui a pouco vou vender peixe do meio da rua — ri, com aquele humor de quem sabe que a maré, além de vizinha, é mandona.

Quem também observa tudo é Dona Cidinha da Tapioca, famosa por saber o ponto da goma só de olhar para o céu. Ela se ajeita atrás do fogareiro e comenta:

— O mar tá chegando perto demais… mas quem sou eu pra reclamar? O dono daqui é ele.

A tarde cai, e a cena muda. Na aldeia Galego, o pajé Chiquinho prepara o toré com os mais jovens. O som dos maracás ecoa, repicando nas ondas, como se o mar prestasse atenção. Ele sempre diz que “o oceano é parente antigo, e parente antigo não gosta que a gente descuide”.

E, de fato, basta caminhar alguns metros pela orla para ver o que o parente anda aprontando: muro derrubado, barraca engolida, raiz de coqueiro exposta, areia faltando como se tivesse sido roubada de noite. A maré não pede licença — apenas chega.

Enquanto isso, lá no campo de futebol próximo à beira-mar, a pelada dos meninos continua. Quando uma onda invade o terreno, eles só param, esperam a água passar e retomam o jogo. Como se fosse normal, como se fosse apenas “o mar querendo ver o placar”.

À noite, quando a lua cheia vira uma lâmina prateada sobre a água, os mais velhos se reúnem na calçada da praça. Falam de histórias antigas, dos encantos do Pajéú, dos tempos em que a maré não avançava tanto. Falam das mudanças. E, como sempre, alguém diz:

— O mar tá vindo.

E outro retruca:

— Sempre veio.

No fim, Baía da Traição segue sua rotina teimosa e bonita. Entre rezas potiguaras, redes estendidas, cocos caindo e turistas encantados. E o mar… ah, o mar.

Esse vem chegando devagarinho, como quem não quer conversa, mas vai tomando o que é seu — palmo a palmo, onda por onda, sem alarde, sem justificativa.

Porque ele sabe que ninguém ali, por mais valente que seja, discute com o mar.

João Pessoa, novembro de 2025.