O SOM DO TEMPO
Demétrius Faustino
Recentemente, na casa de um amigo, peguei um velho disco de vinil antes de colocá-lo na vitrola. Ao tocá-lo, tive a sensação de estar segurando o meu próprio passado — um tempo feito de canções, silêncios e delicadezas esquecidas.
Quando a agulha encontrou o sulco, o chiado veio primeiro — aquele breve sussurro do tempo — e logo depois a voz rouca e urgente de Belchior tomou conta da sala. Era “Velha Roupa Colorida”, e, de repente, tudo pareceu fazer sentido. A canção falava do passado que não volta, da pressa de viver, dos sonhos que mudam de cor, e eu me vi ali, parado, entre o eco das palavras e o som girando devagar.
O vinil, pesado e delicado ao mesmo tempo, parecia conter mais do que canções: guardava cheiros, vozes, tardes inteiras. Havia algo de sagrado naquele gesto de colocá-lo no prato giratório, quase como quem devolve o tempo ao seu eixo. O chiado inicial — aquele leve sopro de poeira antiga — era o anúncio de que o passado estava prestes a falar. E quando a agulha finalmente encontrava o sulco, era como se uma pequena máquina do tempo se acionasse, fazendo o mundo girar no compasso de outro século.
As notas, ainda trêmulas, se espalhavam pelo ar como memórias sonoras. E de repente, sem aviso, lá estavam os cheiros da casa antiga, o café coado no pano, o barulho da cadeira arrastando no chão de cimento, o cão deitado à sombra. Aquele som, com seus estalos e imperfeições, parecia mais verdadeiro do que a nitidez artificial dos tempos modernos. Cada chiado tinha alma, cada arranhão contava uma história.
Quando a primeira faixa de outro vinil começou — “Madalena foi pro mar”, na voz suave e narrativa de Chico Buarque — veio junto uma enxurrada de lembranças: os domingos lentos da infância, o rádio ligado na cozinha, o cuidado da mãe ao virar o disco com as pontas dos dedos, o pai pedindo silêncio para ouvir “só mais essa”. Era o ritual de uma época em que ouvir música era um ato de presença, quase uma cerimônia doméstica. A música não era pano de fundo — era o centro da sala, o coração do dia.
Hoje, tudo cabe num clique. As canções estão no ar, presas em nuvens invisíveis, tocadas sem cerimônia. O som chega rápido, limpo, imediato — e talvez por isso mesmo, sem alma. Perdemos o intervalo entre uma faixa e outra, o tempo do respiro, o gesto do cuidado. Ouvir um vinil exigia paciência: limpar o disco, ajustar a agulha, virar o lado. Era preciso estar ali, por inteiro. E o presente, ironicamente, é o que mais nos escapa.
Naquele instante, diante da vitrola, percebi que não era apenas o som que voltava. Era eu mesmo. Um eu que ainda acreditava que a música podia mudar o humor de um dia, consolar uma tristeza, fazer alguém se apaixonar. Era o reencontro com uma parte de mim que o tempo tentou esconder entre os ruídos da pressa moderna.
O disco terminou, e o silêncio que ficou foi quase tão bonito quanto a música. Um silêncio cheio de lembranças, como se a vida — assim como o vinil — ainda girasse devagar, com um chiado manso entre as faixas. E ali, por um instante, o tempo se curvou, deixando-me ouvir não apenas o passado, mas o som exato de quem eu fui — e, de certo modo, ainda sou.
João Pessoa, novembro de 2025.
