O FANTASMA DO METANOL – Artigo de Demétrius Faustino

O FANTASMA DO METANOL

 

Demétrius Faustino

 

Naquela sexta-feira quente, o bairro parecia pulsar mais que de costume. Entre ruas estreitas e luzes piscando, a festa na varanda de Zé Carlos corria solta. Risadas, música alta, cheiro de churrasco e perfume barato se misturavam no ar, criando uma atmosfera de alegria quase elétrica.

Maria, de cabelo preso e sorriso largo, segurava seu copo com cuidado. Ao lado, João examinava a garrafa comprada no mercadinho da esquina.

— É boa mesmo, João? — perguntou Maria, inclinando-se com desconfiança.
— Relaxa, mulher. É baratinha, mas pega bem — respondeu ele, com aquele sorriso que misturava confiança e imprudência.

Entre os convidados, ninguém suspeitava do que se escondia naquela garrafa. O líquido parecia inofensivo, até convidativo, mas carregava o veneno invisível: o metanol. Não era apenas álcool; era destruição líquida, pronta para enganar o corpo e roubar a vida.

Os primeiros brindes vieram com gargalhadas e histórias repetidas de festas passadas. “Mais uma rodada!”, gritou Zé Carlos, e a música aumentou, embalando o calor e o consumo. Ninguém queria pensar na química por trás do líquido, nas moléculas traiçoeiras que prometiam prazer e entregavam sofrimento.

Horas depois, a atmosfera mudou. Maria reclamou de dor de cabeça intensa, João mal conseguia enxergar direito, e Zé Carlos percebeu que algo estava errado. Os copos se tornaram pesados, a música parecia distante, os sorrisos desapareceram. A festa, que antes era luz e alegria, transformou-se em confusão e medo.

— Chama a ambulância! — gritou alguém, enquanto outros tentavam manter a calma.

A ambulância demorou. Entre corredores estreitos, vizinhos assustados e portas batendo, o veneno silencioso já tinha deixado marcas. Alguns seriam apenas lembranças amargas, outros carregariam sequelas permanentes. A notícia correu pelo bairro: intoxicação grave, cegueira, hospital lotado. O metanol não escolhe vítima pelo sorriso ou pela idade; ele apenas destrói.

Enquanto isso, Dona Lúcia, moradora antiga do bairro, observava a movimentação da calçada. Pegou alguns copos vazios e disse, baixinho, para si mesma:

— Quem aprende a respeitar o perigo, vive. Quem ignora, paga caro.

A frase parecia simples, mas carregava mais verdade do que todos os discursos sobre prevenção juntos. Entre o caos e a confusão, ecoava a lição: nem todo líquido é amigo, nem toda diversão vale a vida.

Nos dias que se seguiram, a festa virou memória amarga. Algumas histórias terminaram em recuperação, outras em sofrimento silencioso. Mas, entre o medo e a tragédia, nasceu uma consciência: o respeito pelo próprio corpo e pela vida. O fantasma do metanol só perde força quando a prudência entra na festa.

E assim, o bairro aprendeu que, entre risos e sustos, entre um gole e outro, a vida vale mais que qualquer bebida barata. Que a alegria verdadeira não se compra nem se engana, e que até nas ruas mais animadas, a responsabilidade é o copo mais importante a se brindar.

João Pessoa, outubro de 2025.