OS ACORDES SILENCIOSOS DE BITUCA
Demétrius Faustino
Milton Nascimento, o nosso Bituca, sempre foi aquele cara que fez a gente enxergar o sol. Não o sol que queima os olhos, mas o que esquenta a alma, que clareia a estrada com música e poesia. Aos 82 anos, esse mineiro que transformou a vida em canção recebeu um diagnóstico duro: demência por Corpos de Lewy.
A notícia, contada pelo filho e empresário Augusto Nascimento, chegou como um acorde triste no meio da melodia bonita que ele construiu. Essa doença mexe com a memória, com o jeito de agir, até com os movimentos do corpo. Já não bastava o Parkinson, que ele já enfrentava há um tempo. Agora, vem essa dupla que confunde e fragiliza.
Os sinais começaram de mansinho: um esquecimento fora do normal, a repetição de histórias em pouco tempo, a falta de apetite… e, o que mais doía, aquele olhar parado, como se Bituca estivesse tentando segurar a alma num lugar conhecido antes de se perder no vazio. Foi isso que levou os médicos a pedirem exames, e em abril veio a confirmação.
Bituca, que se despediu dos palcos em 2022 com a turnê “A Última Sessão de Música”, agora trava sua batalha mais íntima. A mente, que sempre foi seu maior instrumento, sofre com o peso dessa doença que atrapalha os neurônios de se comunicarem.
Não tem cura. O tratamento tenta só segurar um pouco a onda e dar qualidade de vida. Mas o que mais preocupa hoje é o quanto ele anda com dificuldade para se alimentar.
Resta pra gente a imensidão da sua obra. Se a memória falhar, que seja lembrado por milhões de brasileiros. Se o olhar se perder, que encontre de volta o eco de “Travessia”, de “Clube da Esquina”. O Brasil inteiro não esquece o Bituca.
Agora, o que cabe a nós é respeito, carinho e compaixão, como pediu o filho. Porque o cantor que sempre voou alto, sem tirar os pés do chão, vai seguir sua travessia. E, no fim, o caminho de Bituca sempre vai dar no sol.
João Pessoa, outubro de 2025.
