140 ANOS DE SÃO JOSÉ DE PIRANHAS
(JATOBÁ)
Demétrius Faustino
Há cidades que são como rios: mesmo quando parecem quietas, carregam em suas águas memórias e histórias que nunca deixam de correr. São José de Piranhas é assim. Nascida sob a fé de uma capela erguida em devoção ao seu padroeiro, cresceu entre serras, rios e o sopro quente do vento sertanejo, até se firmar, em 24 de setembro de 1885, como município autônomo, dono do próprio destino.
São cento e quarenta anos de caminhos abertos a passos firmes: do vaivém das roças de milho e feijão às feiras de algodão em rama vendido a atravessadores, da enxada que rasga a terra ao livro que abre horizontes. Cada geração deixou sua marca, como se o tempo fosse fiando, ponto a ponto, um bordado feito de luta, fé e esperança.
Nos tempos duros da seca, a cidade aprendeu a resistir; nos tempos de festa, soube dançar. A música das sanfonas ecoou nas calçadas, os terreiros se iluminaram com o São João, e o riso do povo, mesmo diante das dificuldades, nunca deixou de ser um patrimônio maior.
Mas São José de Piranhas também foi palco de coragem. Nos sertões, onde o cangaço cruzou veredas e a História se misturou com a lenda, a cidade viu de perto as tensões que moldaram o Nordeste. E mesmo assim, manteve-se de pé, erguida em valores que atravessam séculos.
A cidade guarda lembranças que não se apagam, registradas não apenas na memória de seu povo, mas também nas páginas da literatura. O advogado e escritor Irapuan Sobral Filho, em seu livro Memórias de um Cascadura, soube captar em palavras o espírito dessa terra, o encanto de suas ruas, a força de sua gente e a poesia escondida no cotidiano sertanejo. Do mesmo modo, os historiadores Deusdedith Leitão, João Rolim da Cunha, Pedro Lins de Oliveira, Messias Ferreira de Lima e José Marconi Gomes Vieira dedicaram-se a resgatar e registrar, em suas obras, as origens, os feitos e os personagens que moldaram o município. Juntos, escritores e historiadores costuram um mosaico de memórias que mantém viva a identidade de São José de Piranhas e a projetam para além do sertão.
Hoje, quando olha para trás, São José de Piranhas enxerga mais do que datas: vê rostos. O dos mestres que ensinaram gerações, rabiscando no quadro não apenas letras, mas futuros inteiros; o dos trabalhadores que ergueram tijolo a tijolo, transformando barro em paredes e sonhos em telhados; o das mulheres que, com mãos firmes, sustentam famílias e fazem da coragem o pão de cada dia; o dos jovens que, apesar das incertezas, sonham alto e teimam em transformar, inventando um amanhã mais justo e generoso.
Vê também a memória dos que partiram, mas que deixaram raízes profundas no chão da cidade, raízes que florescem em histórias contadas à sombra da praça, em lembranças guardadas nas casas antigas, em nomes que se repetem nas novas gerações. E, nesse espelho de rostos e lembranças, São José de Piranhas não celebra apenas o tempo decorrido: celebra o sangue, o suor e a esperança de seu povo, que é a verdadeira matéria com que se constrói a história.
Comemorar 140 anos não é apenas celebrar o passado, mas reconhecer o presente e projetar o futuro. É afirmar que cada esquina, cada praça, cada pedra das calçadas guarda uma história — e que todas elas, entrelaçadas, compõem a grande narrativa de uma cidade que não parou de crescer.
É lembrar que o ontem construiu os alicerces, mas que o hoje é feito de mãos que continuam trabalhando, de jovens que reinventam os sonhos, de famílias que resistem e persistem. É reconhecer que o futuro se abre como uma estrada que ainda será pavimentada com esperança, coragem e fé sertaneja.
Comemorar é, também, reafirmar o orgulho de pertencer a este chão, onde o vento sopra memórias e o horizonte sempre convida a seguir adiante.
Que o dia 24 de setembro de 2025 seja mais do que uma data: Seja um convite para que cada piranhense, perto ou distante, reconheça em si mesmo a parte viva desse legado. Porque, no fim, São José de Piranhas é mais que um lugar no mapa: é chão, é memória, é identidade, é Jatobá.
Parabéns, São José de Piranhas, pelos teus 140 anos de emancipação política. Que venham muitos outros, com o mesmo espírito de luta e esperança que te trouxe até aqui.
João Pessoa, 24 de setembro de 2025.
