ARQUIBANCADA GOURMET – Confira o novo artigo de Demétrius Faustino

ARQUIBANCADA GOURMET

 

Demétrius Faustino

 

O futebol sempre foi chamado de “a paixão do povo”. Porém, nos últimos tempos, essa frase parece mais um slogan publicitário do que uma verdade vivida. Paixão até pode continuar sendo, mas o povo — aquele que historicamente fez das arquibancadas um espaço de festa, identidade e pertencimento — está ficando do lado de fora dos estádios. Diante do preço dos ingressos, olha para o portão fechado e conclui, com amargura, que é melhor garantir a feira do mês do que bancar o luxo de ver seu time jogar. O espetáculo continua, mas o torcedor de raiz, aquele que sustentava a alma do futebol, vai sendo substituído pelo consumidor que pode pagar.

Ir a um jogo virou quase um programa de luxo. Não basta comprar o ingresso — tem a taxa de conveniência (conveniência pra quem? Para o cartão de crédito, claro). Depois tem o estacionamento, que custa o preço de um pastel na rodoviária… se o pastel fosse recheado de ouro. Quando você finalmente entra, percebe que a arquibancada não é mais arquibancada: agora são cadeiras numeradas, estilo avião. Só falta a comissária de bordo perguntando: “quer água ou refrigerante?”

Lembra da turma que levava radinho de pilha para ouvir a narração? Sumiu. No lugar, aparecem torcedores que checam estatísticas no celular durante o jogo, de olho em aplicativos que mostram quanto tempo o lateral demorou pra bater o arremesso. É a era do “torcedor analista de dados”, que comemora menos o gol e mais a porcentagem de posse de bola.

E a velha resenha da arquibancada, aquela mistura de piada, superstição e filosofia barata, vai ficando em extinção. Quem nunca ouviu um sujeito garantir que o time só perde porque ele está usando a meia do avesso? Agora, em vez de superstição, você vê discussões sobre “intensidade tática” e “linha alta”. Parece congresso de especialistas.

Enquanto isso, o torcedor raiz — aquele que já entrou escondendo garrafa PET na camisa e que conhecia metade da arquibancada pelo apelido — assiste de casa, com delay. Grita gol quando o vizinho já está gritando há 10 segundos. Ele continua fiel, mas a arquibancada não é mais dele. É do torcedor gourmet, que chega cedo, estaciona no shopping, compra combo de pipoca trufada e registra tudo no Instagram: “vivendo a experiência estádio”.

A verdade é que o futebol anda correndo o risco de virar peça de teatro. Um espetáculo bonito, sim, mas controlado, limpo, caro — e com plateia seletiva. O problema é que a alma do jogo nunca esteve na poltrona acolchoada. Sempre esteve na massa que canta junto, na vaia coletiva, no xingamento sincronizado contra o juiz. Sem isso, o espetáculo pode ser organizado, mas não terá emoção.

E é aí que mora a contradição: tentam transformar a arquibancada em sala VIP, mas esquecem que o calor do povão é o que mantém o futebol vivo. O estádio não foi feito para ser silêncio educado de plateia de ópera. Foi feito para ser batuque, gargalhada, bandeira improvisada com lençol velho e até aquele sujeito que nunca acerta o grito de guerra, mas canta mesmo assim.

Se o ingresso continuar nesse preço, talvez chegue o dia em que o estádio será um retrato perfeito do paradoxo moderno: impecável, iluminado, equipado com assentos confortáveis e wi-fi de alta velocidade, mas com as cadeiras vazias. O jogo será transmitido em 4K, com direito a replays de todos os ângulos, estatísticas em tempo real e narradores empolgados, mas dentro de campo faltará o essencial. A torcida.

Não haverá aquele cheiro de pipoca barata misturado à fumaça do espetinho, nem o barulho do radinho de pilha passando de mão em mão para acompanhar os outros resultados. Não se ouvirá o coro desafinado das arquibancadas, nem os xingamentos improvisados ao juiz e ao bandeirinha. Restará o silêncio polido das cadeiras numeradas e o brilho frio das telas.

E aí, meu amigo, não vai ter taxa de conveniência que resolva. Porque sem o povo, sem o grito e sem a emoção coletiva, o futebol deixa de ser paixão para virar apenas produto.

João Pessoa, agosto de 2025.