TARIFA TRUMP – Novo artigo de Dmétrius Faustino

TARIFA TRUMP

 

Demétrius Faustino

 

Foi numa terça-feira — dessas em que o mundo gira e o ego de certos líderes gira mais rápido — que Donald Trump, esse arauto da diplomacia de playground, resolveu brincar de alfândega. Entre um taco de golfe e outro, talvez irritado com o vento ou com o último furo no green, sacou o celular (ou o ego, vai saber) e tuitou — ou “truthou”, na sua rede social particular, que mais parece um palanque digital com eco: “Tarifa de 50% para o Brasil!”

Assim, seco, direto, e com aquele sotaque de CEO do caos. Não houve aviso prévio, nem consulta, nem sequer uma indireta elegante — apenas a tarifa, como quem joga o tabuleiro no chão porque perdeu a partida. Uma jogada de mestre no tabuleiro da impulsividade: a economia brasileira virou peão num jogo onde a regra muda conforme o humor do jogador da vez.

Ou seja, sem vaselina e sem aviso prévio. Como quem aumenta o preço do cafezinho só porque o garçom olhou torto.

A justificativa? Uma pérola digna de enredo de escola de samba, dessas que misturam drama, exagero e fantasia em pleno desfile:

“O Brasil está perseguindo Bolsonaro, meu amigo, meu irmão, meu espelho de palanque. Isso é injusto. Vai ter troco.”

E teve. Mas não foi troco, foi calote emocional com roupagem de sanção econômica. Um gesto que mistura birra diplomática com fidelidade canina. Porque Trump, como se sabe, não esquece um aliado. Muito menos um aliado que o imita, que o exalta, que o defende até quando o mundo inteiro já virou a página.

De repente, o Brasil acordou como aquele aluno aplicado que fez tudo certo: entregou o trabalho no prazo, caprichado, com capa plastificada e tudo — e ainda assim levou bomba porque o colega da carteira do lado colou e foi pego. Castigo coletivo, versão diplomática. O crime foi alheio, mas o boletim veio vermelho para todos.

A tarifa caiu como raio em céu nublado, sem aviso e sem nuvem. Um trovão no meio do expediente, desses que derrubam a conexão da bolsa, fazem o dólar espirrar e o agronegócio tossir seco. Os exportadores brasileiros, que já andavam com a corda no pescoço por conta da oscilação cambial, da pressão ambiental e da geopolítica do milho, agora precisam se equilibrar em salto alto — finíssimo, escorregadio, e em pista inclinada.

Do outro lado do oceano, o comprador americano observa com olhos de Black Friday: “agora ficou caro, melhor buscar outro fornecedor”. E o Brasil, com a mercadoria na mão e cara de quem levou o bolo no baile, tenta disfarçar a frustração e renegociar os passos da dança.

A cena toda lembra aquelas broncas injustas de diretor de escola: “se ninguém confessar quem começou, a classe inteira vai ficar sem recreio”. Só que, neste caso, o recreio é a balança comercial, e quem segura o lanche somos nós.

Enquanto isso, Trump segue impávido, cercado de aplausos da ala mais barulhenta dos seus fiéis. Para eles, não importa se o Brasil foi lesado — importa que o ex dele, o Jair, foi vingado. Porque na lógica do espetáculo, não se busca justiça, mas enredo. E de preferência, com vilões e heróis bem definidos — mesmo que fora da realidade.

Lula, em resposta, ensaiou um discurso diplomático com pitadas de cangaço — meio Itamaraty, meio Lampião de palanque. Disse, em tom firme, que o Brasil não aceita ser colônia de ninguém, que não abaixa a cabeça para caprichos de nenhum império, nem que ele use gravata vermelha e more em resort na Flórida. Faltou só completar com um clássico do sertão:

“Mande dizer a Trump que aqui se faz, aqui se paga… e com juros do Banco Central.”

Mas foi por pouco. A fala veio carregada de sobriedade calculada, aquela mesma que a diplomacia exige quando o sangue sobe. Lula mordeu, assoprou, e ainda ofereceu uma xícara de café — com gosto amargo e sem açúcar — aos parceiros comerciais norte-americanos. Afinal, não se desfaz uma relação de séculos por causa de um chilique tarifário. Mas o recado estava dado: se o jogo fosse de imposição, o Brasil saberia jogar — com um sorriso no rosto e faca na bota.

Enquanto isso, o milho chora, a soja grita, e o café — coitado — amarga. É que os EUA resolveram cobrar mais caro pelo que sempre compraram barato. E por quê? Porque o ex do Brasil não pode mais disputar eleição, e o ex dos EUA não gostou. Parece novela mexicana, mas é só política internacional versão 2025.

A verdade é que Trump trata comércio como quem trata briga de bar: na base do grito e do tapa na mesa. E o Brasil, como sempre, fica entre o jeitinho e o prejuízo. Um país que planta, colhe, embala e exporta — mas, se não sorrir para o gringo, leva taxa na cara.

O futuro? Bem, talvez a gente aprenda. Ou talvez a gente continue nessa relação tóxica com a ideia de “parceiro estratégico”, que nos abraça com uma mão e aperta nosso bolso com a outra.

Por ora, que sirvam mais uma rodada de juros — a conta já vem chegando com tarifa nova. E Trump, como de costume, vai rir do outro lado do mundo, enquanto a gente tenta descobrir como se enfrenta um bilionário mimado sem deixar o prato de comida cair da mesa. Mas é fato: o presidente Lula não vai deixar por menos.

João Pessoa, julho de 2025.