OS MALUCOS DO REI – Confira o novo artigo de Demétrius Faustino

OS MALUCOS DO REI

 

Demétrius Faustino

 

Era uma vez um país onde os malucos invadiram os palácios. Não eram personagens de fábulas, nem saíram dos livros de Kafka. Eram de carne, osso e WhatsApp. Subiram rampas com orgulho e fúria, vestindo verde e amarelo como se fosse armadura. Quebraram vidraças como quem rompe com o espelho da razão. Rezar, rezaram — ajoelhados no carpete alheio, entre crucifixos e celulares, tentando transformar golpe em culto. Diziam-se patriotas, mas deixavam rastros como vândalos em marcha.

Foi no verão. Um janeiro incandescente. Calor nas ruas, febre nos olhos. O suor misturava-se com a raiva, e as palavras se perdiam em ecos confusos. Confundiu-se fé com fanatismo, civismo com vandalismo, democracia com o que coubesse no grito mais alto. E quem gritava mais parecia ter razão — até que a razão se escondeu, assustada, atrás das cortinas do Congresso.

Depois do furacão, vieram as varreduras. Aspiradores para os cacos, esfregões para o sangue simbólico derramado nos corredores. Mas o mais difícil foi limpar as memórias. As câmeras mostravam tudo, mas as versões pareciam saídas de mundos paralelos. Houve quem dissesse que foi uma “festa cívica”. Outros, que foram levados sem saber. Alguns alegaram delírio coletivo, outros culparam a empada servida no ônibus.

Cada depoimento era uma nova versão do mesmo roteiro mal ensaiado. A história, frágil e manipulável, oscilava entre o ridículo e o trágico. O tempo, como sempre, tentava passar uma borracha. Mas o pó da destruição ainda pairava no ar.

Até que, um dia, o próprio ex-presidente, cercado de toga e silêncio, falou ao Supremo. Olhou ao redor, talvez buscando aliados no vazio, e resumiu tudo num gesto de negação: — Eram malucos.

E assim, os generais de sofá viraram doidos de ocasião. Os heróis de Telegram foram reduzidos a um erro de algoritmo. A multidão virou massa de manobra. E o país, mais uma vez, viu seu teatro reencenar a velha peça do “ninguém foi”.

Mas os palácios seguem de pé. Rachados, sim — nos vidros, nas paredes, na confiança. E o povo, esse personagem esquecido, continua assistindo da plateia. Uns aplaudem, outros vaiam. E muitos, exaustos, apenas se retiram em silêncio, perguntando-se se o próximo ato será melhor — ou apenas mais um capítulo de uma história que insiste em repetir seus erros, agora com legendas em tempo real.

Malucos. Assim mesmo, no singular coletivo de quem se descola do caos com uma palavra só. Como se a loucura fosse um passe livre para o perdão. Como se a insanidade coletiva nascesse do nada, como erva daninha sem jardineiro.

Mas os malucos, quem os viu sabe: vestiam verde e amarelo, pediam intervenção militar com camiseta do Brasil e rezavam para que o mundo acabasse em golpe. Malucos com WI-FI, QR CODE de PIX e grupo no Telegram. Malucos com agenda e data marcada.

A frase do ex-presidente caiu como pedra na água parada: “Eram malucos.” Disse com a tranquilidade de quem assiste à própria biografia pela TV, sem se reconhecer no protagonista. Um espanto seletivo. Como se tivesse sido um susto também para ele, aquela multidão que jurava amor eterno ao mito.

Se eram malucos, a loucura era de quem? Deles? De quem acendeu o fósforo? Ou de quem achou que dava para brincar de revolução sem sair chamuscado?

A história, coitada, segue esfregando o chão do Palácio, tentando apagar as pegadas de quem entrou sem ser convidado. E os malucos… bom, continuam por aí. Alguns presos, outros livres, outros ainda esperando a próxima live. A loucura, afinal, nunca anda sozinha. E às vezes, ela se veste de civismo e se senta à mesa do poder, chamando todos à razão.

Mas a memória — essa sim — não é maluca. E um dia, talvez, se canse de desculpas.

João Pessoa, junho de 2025.